Thalia fitava o céu azul entrecortado de nuvens do lado de fora da janela, o vento suave carregando o cheiro de terra molhada até a sala. O ar entrava leve, com aquela temperatura de 25 graus que parecia não decidir se refrescava ou apertava, e as folhas lá fora balançavam devagar, como se o tempo brincasse com a umidade alta. Uma pergunta incômoda teimava na cabeça dela: e se o que eu mostro não for tudo que eu sou?
Ela encostou a testa no vidro e pensou nas coisas que guardava só para si, aquelas misturas de histórias antigas de Minas com o jeito que sentia lealdade e gratidão de verdade, sem precisar explicar. Queria escrever tudo isso de um jeito que parecesse seu, mas a coragem para começar sempre tropeçava na dúvida de quanto revelar. O vento trouxe um sopro mais fresco, e Thalia respirou fundo, sentindo que talvez o simples ato de tentar já mudasse alguma coisa dentro dela.
Veronica tinha deixado a janela entreaberta antes de sair, e o cheiro doce da terra molhada parecia convidar a continuar. Thalia afastou o pensamento de que talvez nunca fosse o suficiente e puxou a cadeira mais perto, deixando a pergunta pairar enquanto o dia seguia seu ritmo.
Capítulo 1: O Caderno Aberto
Thalia puxou a cadeira até a mesa junto à janela, sentindo o assento arrastar um pouco no chão de madeira. O ar de 25 graus entrava leve e refrescante, carregando o cheiro de terra molhada que subia do quintal. Ela esticou o braço, abriu a gaveta de cima e tirou o caderno que guardava há dias, com as bordas um pouco amassadas. As páginas vibraram quando o vento passou pela janela, e ela alisou uma folha em branco antes de pegar o lápis.
Ela começou a escrever misturando histórias antigas de Minas com coisas que sentia agora. Lembrou de contos sobre gente que viajava pelas estradas de terra e enfrentava o desconhecido, e tentou colocar ao lado disso a vontade de mostrar algo mais pessoal, como o jeito que hesitava antes de tentar qualquer coisa nova. As palavras surgiam devagar. Thalia riscou uma frase inteira que soou forçada, passou a borracha com força e recomeçou com algo mais simples sobre o que a deixava inquieta ultimamente. O cheiro úmido da tarde se misturava ao grafite fresco, e ela inclinou a cabeça para ler o que tinha acabado de anotar.
Thalia mudou de lugar na cadeira, sentando mais para a frente para escrever melhor. A decisão de começar já era um passo que ela não tomava havia semanas, e o caderno agora guardava fragmentos de quem ela tentava entender. Para não deixar as ideias soltas, ela adicionou uma linha curta sobre valorizar o momento quieto que tinha em mãos, como um jeito concreto de agradecer pela chance de tentar. O vento balançou a cortina e ela ajustou o caderno para não deixar o papel voar. Quando uma palavra não encaixava, ela parava, olhava pela janela e reescrevia sem pressa.
Ela se levantou por um instante para pegar um apagador que tinha caído no chão, limpou o resíduo da mesa e sentou de novo. Continuou misturando a curiosidade pelas histórias antigas com pedaços de suas próprias experiências, riscando o que parecia exagerado e mantendo o que soava mais direto. O céu parcialmente coberto lá fora combinava com as anotações cheias de espaços em branco. Thalia sentiu a umidade no ar e passou o dorso da mão na testa antes de voltar ao texto, persistindo mesmo quando uma frase saía torta. Cada ajuste pequeno era uma forma de seguir em frente sem desistir no meio.
Capítulo 2: Palavras que se Ajustam
Com o caderno ainda aberto, Thalia pegou o celular ao lado e abriu uma nota antiga sobre um projeto escolar que havia guardado. A nota falava de um trabalho em grupo onde ela precisou defender uma ideia mesmo quando os outros duvidavam, e ela usou aquelas lembranças para costurar novas frases no papel. O vento balançava as cortinas, trazendo mais ar úmido pela janela. Ela leu o texto antigo, copiou mentalmente o que servia e começou a ajustar uma descrição sobre lealdade, mudando o tom para algo mais cru depois de reler o que tinha escrito antes.
Uma gota de umidade condensada na janela escorreu devagar, e Thalia parou para limpar o dedo no vidro antes de continuar. Percebendo que algumas partes soavam mais honestas que outras, ela mudou uma linha inteira, escolhendo não suavizar o que havia sentido na época do projeto. Em vez de dizer que tudo tinha sido fácil, escreveu sobre a dificuldade de manter a palavra quando ninguém mais acreditava. O ar mais úmido agora parecia acompanhar o ritmo das anotações que cresciam na página, e ela riscou outra parte que parecia muito polida.
Thalia se levantou para esticar as pernas, caminhou até a janela e fechou um pouco a cortina para reduzir o vento forte, depois voltou para a mesa. Voltou a olhar o celular, relendo a nota antiga para encontrar mais detalhes que pudessem ajudar. Ajustou uma frase sobre gratidão, transformando em algo concreto: escreveu que agradecia de verdade quando alguém ficava ao lado dela sem precisar de muitas palavras. Isso a fez perceber que podia ser mais direta nas anotações, sem esconder as partes incertas. O cheiro de terra molhada persistia, misturado agora ao som leve do lápis no papel.
Ela guardou o celular de volta ao lado do caderno e continuou escrevendo, mudando o final de um parágrafo para refletir melhor o que realmente tinha acontecido. Quando uma palavra não encaixava, ela parava, respirava fundo e recomeçava sem apagar tudo. O processo de misturar as lembranças antigas com o que sentia agora a ajudava a ver as ideias com mais clareza, mesmo que ainda restassem algumas dúvidas. Thalia fechou o caderno por um momento, guardou o lápis dentro e abriu de novo, pronta para adicionar mais uma linha antes de parar por hoje.
Capítulo 3: A Parte Compartilhada
Thalia esticou o braço por cima da mesa e pegou o celular que descansava ao lado do caderno aberto. O dedo deslizou rápido na tela até encontrar o nome de Lara na lista de conversas, e ela respirou fundo antes de copiar apenas os dois parágrafos que pareciam mais seguros. As palavras falavam de uma lembrança de lealdade durante um trabalho escolar em que ela tinha defendido uma colega mesmo sabendo que o grupo inteiro discordava, misturadas com um pedaço de curiosidade sobre histórias antigas de Minas que ela ainda guardava no peito. Enviar tudo o que tinha escrito não parecia possível ainda, então ela colou só aquilo, adicionou um “o que você acha?” simples e apertou o botão de enviar. O vento entrou mais fresco pela janela aberta, fazendo as cortinas balançarem e trazendo outra onda do cheiro doce de terra molhada que subia do quintal.
Enquanto esperava, Thalia sentiu os ombros travados e decidiu mudar de lugar. Levantou devagar, empurrou a cadeira com o pé e foi até a poltrona baixa que ficava encostada na parede oposta. Sentou-se com cuidado, recostando as costas no tecido macio para aliviar a tensão que subia pelo pescoço. O ar úmido tocava a pele dos braços, e ela observou uma gota que escorria devagar pelo vidro da janela, seguindo o caminho com o olhar. O celular vibrou contra a coxa. Lara tinha respondido rápido: “Nossa, Thalia, isso é bem sincero. Dá pra sentir que você pensou bastante antes de escrever. Continua, eu quero ver mais.” A mensagem apareceu na tela com um emoji de coração pequeno no final.
Thalia leu duas vezes, sentindo um calor leve subir pelo peito. O impulso de responder na hora veio forte, como se quisesse contar que ainda existiam partes que ela riscara e reescrevera várias vezes. Os dedos pairaram sobre o teclado, mas ela parou. Mandar só aquilo já tinha sido um passo, e completar a conversa agora parecia arriscado demais. Ela guardou o celular no colo sem digitar nada e ficou olhando o teto, onde a luz fraca da tarde entrava entre as nuvens parciais. A frustração apareceu como um peso pequeno na barriga, porque parte dela queria mandar o resto logo e ver o que Lara diria. Ao mesmo tempo, a proteção de ter escolhido o que mostrar a deixava mais tranquila, mesmo que incompleta. O cheiro de terra molhada continuava presente, misturado agora com o alívio leve de ter ousado.
Ela mudou de posição na poltrona, cruzando as pernas e apoiando o cotovelo no braço do móvel. O vento trouxe mais um sopro fresco, e Thalia ajustou a manga da blusa que tinha subido um pouco. Pensou em como Lara não tinha perguntado nada além do que ela mandou, só tinha encorajado. Isso fazia a gratidão surgir de forma concreta, quase como um gesto que ela queria retribuir, mas ainda não sabia como. Em vez de insistir na conversa, Thalia ficou quieta mais um minuto, ouvindo o farfalhar das folhas lá fora e sentindo a umidade que deixava o ar mais denso. O celular continuou no colo, a tela apagada, enquanto ela decidia que por enquanto bastava ter enviado aqueles dois parágrafos. A dúvida sobre o que ainda não mostrara ficou ali, quieta, mas presente, sem estragar o gosto leve de ter dado o primeiro passo.
Capítulo 4: O Ponto Final e o Vazio
Thalia voltou para a cadeira da mesa e pegou a caneta que tinha deixado aberta ao lado do caderno. O vento ainda soprava suave, mas agora parecia mais úmido, como se a tarde estivesse se preparando para mais chuva fina. Ela leu de novo os dois parágrafos que tinha mandado para Lara e, inspirada na resposta encorajadora, escreveu uma frase curta no final: “Às vezes basta alguém ouvir uma parte para o resto fazer sentido depois”. A letra saiu um pouco torta por causa da pressa, mas ela não riscou. Fechou o caderno com cuidado, passando a mão na capa antes de guardá-lo na gaveta de cima da mesa, empurrando até ouvir o clique suave do fecho.
Do lado de fora, o céu continuava parcialmente coberto, e Thalia ficou parada observando as nuvens se moverem devagar. Agradecer mentalmente pela mensagem de Lara surgiu de forma automática, quase como um alívio que ela queria guardar. A gratidão se misturou com a consciência de que ainda faltava coragem para mostrar o texto inteiro, e ela sentiu isso como uma pontada leve no peito. Em vez de pegar o celular de novo para mandar mais, caminhou até a janela e ajustou a cortina que o vento tinha empurrado para dentro. O tecido deslizou entre os dedos, e ela prendeu uma das abas atrás do gancho da parede para que não balançasse mais.
A umidade no ar parecia ter aumentado desde que ela sentara na poltrona. Thalia percebeu isso quando uma gota maior escorreu pelo vidro e parou perto do parapeito. A dúvida sobre como as outras pessoas iam ver o que ela realmente era não tinha desaparecido, só tinha ficado mais silenciosa depois da resposta de Lara. Ela ficou mais um minuto ali, olhando as folhas molhadas no quintal e sentindo o cheiro de terra que subia constante. Antes de sair da sala, pegou o celular que tinha deixado na poltrona e abriu a conversa com a amiga. Criou uma pasta nova chamada “textos” e salvou tudo dentro dela, um gesto pequeno que não resolvia a pergunta maior que continuava pairando.
Thalia guardou o celular no bolso da calça e caminhou até a porta da sala, parando só para verificar se a gaveta onde colocara o caderno estava bem fechada. O ar de 25 graus entrava ainda refrescante, mas agora carregava mais umidade, fazendo a blusa grudar levemente nas costas. Ela pensou que talvez no dia seguinte pudesse reler tudo e decidir se mandava mais alguma linha, mas por enquanto o passo de hoje bastava. A gratidão pela forma como Lara tinha respondido ficou ali, concreta, como algo que ela queria lembrar quando voltasse a escrever. Ao mesmo tempo, a sensação de que ainda existia uma parte dela que ninguém via completamente não sumiu, só ficou esperando o momento certo. Thalia fechou a porta da sala devagar, deixando o vento continuar seu caminho pelas cortinas.