Leleca estava bem juntinho do pai Alex, aninhado no colo quentinho, cobertos por uma manta macia. Lá fora, o vento frio soprava de mansinho e o dia cinza ficava do outro lado da janela, bem longe do sofá. A sala estava em silêncio, só se ouvia o barulhinho leve da chuva que ia cair.
O tablet, em cima dos joelhos do pai, acendeu de repente com uma luz azul de praia. Fotos antigas da areia e do mar apareceram na tela, brilhando como um pedacinho de céu. Alex sorriu, ajeitou o tablet mais perto e disse baixinho, com a voz de quem ia contar um segredo gostoso: "Vamos ver a praia, Leleca?" Os olhinhos do menino brilharam junto com a tela, curiosos e felizes, prontos para a brincadeira naquele dia tão frio e tão cinza.
Capítulo 1: A Tela que Brilha
Leleca estava bem juntinho do pai Alex, aninhado no colo quentinho, cobertos por uma manta macia. Lá fora, o vento frio soprava de mansinho e o dia cinza ficava do outro lado da janela, bem longe do sofá. A sala estava em silêncio, só se ouvia o barulhinho do aquecedor soprando ar morno e o leve ronronar do tablet quando o pai Alex deslizou o dedo pela tela.
De repente, a tela brilhou com um azul tão vivo que parecia pedacinho de céu. Leleca arregalou os olhos e se inclinou para frente, o corpo inteirinho curioso. A foto mostrava o mar de Balneário Camboriú, com ondas pequeninas quebrando na areia amarelinha. O sol na imagem fazia a água brilhar como se tivesse estrelinhas dançando.
— Uau... — soprou Leleca, o som saindo baixinho, quase um suspiro de encantamento.
Ele levantou o dedinho indicador e apontou para a tela, mas não tocou. O dedo ficou pairando no ar, a um centímetro do vidro, como se Leleca estivesse respeitando a beleza daquela água azul. O pai Alex sorriu, sentindo o peso do filho se ajustar no colo, e segurou o tablet mais perto, inclinando a tela para que Leleca visse cada detalhe.
— Olha a onda, Leleca — sussurrou o pai, a voz quentinha como o cobertor que os envolvia. — Vem vindo, vem vindo... xiááá!
Leleca piscou devagar, os cílios loirinhos fazendo sombra nas bochechas rosadas. Ele sorriu de leve, um sorriso pequeno que iluminou o rosto inteiro. O som que o pai fez — "xiááá" — era gostoso de ouvir, como se a onda estivesse ali dentro da sala, trazendo um pouquinho de praia para o dia frio.
— Xiááá — repetiu Leleca bem baixinho, a vozinha imitando o pai, mas do seu jeito, mais curta e soprada.
O pai Alex apertou o abraço de leve, ajustando a manta que tinha escorregado um pouquinho do ombro de Leleca. O tecido era azul também, mas um azul mais escuro, quase cinzento, e tinha bolinhas brancas que pareciam nuvenzinhas. Leleca sentiu o calor do colo do pai, o cheirinho bom de roupa limpa e alguma coisa que era só do Alex, um cheiro de segurança e carinho.
— Quer ver outra foto? — perguntou o pai, já deslizando o dedo pela tela devagar.
Leleca balançou a cabeça que sim, o cabelo loiro roçando no peito do pai. A próxima foto mostrou a mesma praia, mas de outro ângulo. Agora dava para ver um guarda-sol colorido, listrado de vermelho e amarelo, fincado na areia. Na beirinha da imagem, aparecia um pedacinho de baldinhos e pazinhas, daquelas de brincar na areia.
— Oba! — exclamou Leleca, apontando de novo, o dedinho ainda sem tocar a tela.
Ele conhecia aqueles brinquedos. Tinha uns parecidos guardados no armário do quarto. O pai Alex percebeu o interesse e aproximou mais a foto, usando dois dedos para aumentar a imagem, como se fosse uma lente mágica.
— Olha só, um baldão! — disse o pai, apontando também, o dedo grande quase tocando o vidro. — E uma pá. Pá-pá-pá!
Leleca riu do som repetido. "Pá-pá-pá" era engraçado, fazia a boca abrir e fechar três vezes seguidas. Ele abriu e fechou a boquinha sem fazer som, imitando o movimento da fala do pai, e depois olhou para Alex para ver se ele tinha percebido.
O pai Alex percebeu e fez de novo, devagar:
— Pá... pá... pá...
Agora Leleca falou também, a vozinha seguindo o ritmo do pai:
— Pá... pá... pá...
Eles ficaram ali, repetindo juntos, o som ecoando baixinho na sala. O aquecedor continuava soprando seu ar morno, o vento lá fora balançava as folhas do jardinzinho, mas dentro da sala só existia aquele momento: o tablet brilhando com as cores da praia, o colo quentinho do pai, a manta macia com bolinhas de nuvem, e os dois brincando de falar "pá-pá-pá" como se estivessem cavando areia juntos.
Leleca sentiu o peito encher de uma sensação boa, uma alegria pequena mas grandiosa, daquelas que não precisam de risada alta para existir. Era uma alegria calminha, que morava no coração e fazia a respiração ficar mais lenta e o corpo mais mole no colo do pai.
Ele apoiou a cabeça no peito de Alex e ficou olhando a foto do guarda-sol, os olhinhos passeando pelas listras vermelhas e amarelas. A luz da tela fazia o rostinho dele brilhar de um jeito azulado, e o pai Alex ficou uns segundos só observando o filho observar o mar congelado na fotografia.
— Bonito... — murmurou Leleca, e o pai não soube se ele falava da foto ou do momento, mas concordou com um beijo no topo da cabeça loira.
Capítulo 2: O Toque Suave
O silêncio voltou por um instante, só o aquecedor e o vento do lado de fora fazendo companhia. Leleca continuava olhando a foto da praia, mas agora alguma coisa diferente mexia com ele: o dedinho que antes só apontava começou a querer tocar. Era uma vontade que vinha da ponta do dedo, uma cosquinha curiosa.
Ele esticou a mãozinha devagar, muito devagar. O bracinho saiu debaixo da manta e foi avançando no ar até encontrar a tela. O indicador tocou o vidro bem de leve, uma vez só, exatamente em cima da água azul.
— Uh! — fez Leleca, surpreso com a sensação.
O vidro era frio e lisinho, tão diferente da manta quentinha e do calor do pai. Frio e liso como... como... Leleca não sabia dizer, mas a sensação era nova e interessante. Ele tirou o dedo rapidinho, como se tivesse tocado algo vivo, e olhou para o pai com os olhos azuis brilhando.
O pai Alex segurou a mãozinha de Leleca com carinho, envolvendo os dedinhos pequenos na palma da sua mão grande e quente. Ele guiou o toque de volta para a tela, mas dessa vez bem devagar, ensinando a fazer um carinho suave.
— Toc, toc — disse o pai, batendo o dedinho de Leleca de leve no vidro. — Assim, ó. Toc, toc, como a onda bate na areia.
Leleca riu baixinho, uma risada curta que saiu pelo nariz junto com um soprinho de ar. Ele olhou para o pai, depois para a tela, depois para o pai de novo. Aquele som — "toc, toc" — era gostoso de ouvir, parecia mesmo o barulho da água batendo no chão.
— Toc — repetiu Leleca, e tocou a tela sozinho, experimentando fazer o gesto sem a ajuda do pai.
Só que dessa vez o dedinho foi mais para o lado, caindo em cima da areia amarela. A foto não mudou, mas Leleca pareceu achar graça de ter tocado um lugar diferente. Ele tirou o dedo e tocou de novo, agora mais devagar ainda, mudando um pouquinho o lugar outra vez. Agora foi bem na beiradinha da onda, onde a água e a areia se encontravam.
— Aí! — disse ele, apontando com o dedo que estava livre, o outro ainda colado na tela.
O pai Alex entendeu a descoberta do filho e sorriu. Leleca estava percebendo que podia tocar em partes diferentes da imagem e que cada toque era uma escolha. Primeiro a água, depois a areia, depois a beiradinha onde os dois se misturavam.
— Isso, filho. Água e areia — explicou o pai, tocando também com seu dedo grande ao lado do dedinho de Leleca. — Azul e amarelo.
Leleca olhou para os dois dedos juntos na tela: o grandão do Alex e o seu pequenininho. Eles estavam lado a lado em cima do azul do mar. Leleca moveu o dedo mais um pouquinho e tocou o dedo do pai. Riu de novo, achando divertido aquele encontro.
— Toc, toc — fez o pai, batendo de leve o dedo no de Leleca.
— Toc, toc — respondeu Leleca, batendo de volta.
Eles ficaram nessa brincadeira por um tempinho: toc, toc, toque para o lado, toque para cima, toque no azul, toque no amarelo. Cada toque vinha com um som novo que o pai Alex inventava na hora.
— Ploc, ploc — fazia quando Leleca tocava a água.
— Chchch — fazia quando tocava a areia, como se fosse o barulho dos pés caminhando na praia.
Leleca ria e repetia os sons do seu jeito. "Poc, poc" para a água; "ch, ch" para a areia. Não era igual ao que o pai fazia, mas era a versão dele, e o pai Alex achava a coisa mais linda do mundo.
Em um momento, Leleca apertou a tela com mais força, e a foto se mexeu! Ela deu um pulinho para o lado, mostrando um pedacinho novo da imagem que antes estava escondido. Apareceu mais areia e mais céu, e Leleca arregalou os olhos, surpreso.
— Oh! — exclamou, olhando para o pai como quem diz "olha o que eu fiz!".
— Você descobriu, Leleca! — disse Alex, orgulhoso. — Mexeu a foto!
Leleca, animado com a descoberta, tentou fazer de novo. Esticou o dedo e apertou a tela mais uma vez, mas dessa vez a foto não mexeu. Ele franziu a testa e tentou outra vez, apertando mais forte.
— Devagar, filho — ensinou o pai, cobrindo a mãozinha de Leleca com a sua e guiando o movimento. — Assim, ó... arrasta...
O dedo de Leleca deslizou pela tela junto com o do pai, e a foto se moveu de novo, mostrando agora um pedacinho do mar que estava escondido na beiradinha da imagem.
— Arrasta — repetiu Leleca, a palavra saindo meio enrolada, mas cheia de vontade de aprender.
O pai Alex beijou o topo da cabeça loira outra vez, sentindo o cheirinho de shampoo infantil que ainda estava no cabelo do filho. Leleca continuou tocando a tela, agora com mais confiança, mudando o dedo de lugar, testando apertar de leve e arrastar bem devagar. Cada toque era uma descoberta nova, e cada descoberta vinha acompanhada de um olhar para o pai, esperando a confirmação de que estava tudo certo.
E estava tudo certo. Estava tudo mais do que certo. Estava perfeito ali no quentinho da sala, com o tablet brilhando as cores da praia e o pai Alex abraçando Leleca bem forte, como se o abraço dissesse tudo o que as palavras não precisavam falar.
Capítulo 3: Cores que se Apontam
O dedinho de Leleca deslizou pela tela, tocando bem de leve no azul escuro da água. Ele sentiu o vidro frio outra vez, mas agora o movimento era mais certo, mais dono de si. Parou no azul e ficou ali, com a pontinha do dedo parada, como se esperasse que a cor fizesse barulho. O mar da foto continuava quieto, mas o olho de Leleca brilhava.
— Azul — sussurrou o pai Alex, inclinando a cabeça para ver o mesmo ponto. — Azul como o mar.
Leleca olhou para o pai com expectativa, os olhinhos bem abertos e a boca fazendo um biquinho de surpresa. Ele queria ver se o pai entendia o que ele tinha achado. E o pai entendeu. Alex apontou também, colocando o dedo grande bem ao lado do dedinho pequeno, e repetiu:
— Azul.
Aquela troca fez o peito de Leleca encher de um calor gostoso. Ele tirou o dedo dali e, sem pressa, procurou outra cor na foto. Os olhos passearam pela tela até encontrar o amarelo da areia, bem embaixo, onde a água terminava. Lá estava o amarelo clarinho, quase branco de tão clarinho, e Leleca apontou para ele com a mesma firmeza de antes.
— Amarelo — disse Alex, e apontou também. — Amarelo como a areia.
Leleca sorriu, um sorriso que começou devagar e foi crescendo até mostrar os dentinhos pequenos. Ele tinha mostrado uma cor e o pai tinha adivinhado! Era como um jogo novo, um jogo que não precisava de palavra nenhuma, só de dedo e olho e aquela anteninha invisível ligando os dois.
Ele quis brincar de novo. Voltou o dedinho para o azul e deu um toque rápido. Toc. O tablet fez um clique baixinho, um som de botão que ninguém tinha apertado. Leleca riu, um riso solto que saiu antes que ele pensasse. Aquele clique era uma surpresa engraçada, um barulho que aparecia quando ele encostava na tela com vontade.
— Toc — fez Alex, imitando o som com a boca. — Toc, como onda.
Leleca repetiu o toque. Agora mais confiante, com a mãozinha inteira espalmada no azul. Toc. Outro clique. E depois mais um toque no amarelo. Toc. O pai ria junto, e a risada dos dois se misturava na sala quentinha. Cada toque fortalecia a sensação de que aquilo era deles, uma língua nova que só os dois entendiam.
Ele olhou para o pai e deu três toques seguidos no azul: toc, toc, toc. Três vezes, cada uma mais forte e mais certa que a anterior. O pai Alex acompanhou com a cabeça, balançando como se ouvisse uma música. E então Leleca sentiu o cheirinho do pai — aquele cheiro bom de roupa limpa e pele quente, que ele conhecia desde sempre. Fechou os olhos rapidinho para sentir melhor, e quando abriu de novo, o pai estava lá, sorrindo com os olhos, o tablet iluminando o rosto dos dois.
— Meu Leleca — disse Alex, baixinho. — Você achou as cores.
Leleca não sabia o que era “achou as cores”, mas entendeu que aquilo era bom. Ele se aninhou mais no colo, sentindo o tecido macio da manta e o calor do peito do pai. A mãozinha ainda descansava na tela, no amarelo, como se guardasse ali um segredo. Ele suspirou, um suspiro de quem acabou de descobrir um tesouro escondido.
Capítulo 4: Um Abraço de Lembrança
O tesouro ainda brilhava na frente de Leleca, mas agora ele queria mais uma coisa. Os olhinhos correram a tela inteira, procurando. Já tinha achado o azul, o amarelo, mas faltava alguma cor quentinha, uma cor que não dava pra tocar na vida real, só na foto. E de repente ele achou: o sol. Bem no cantinho da imagem, um sol amarelo-alaranjado, pequenininho mas redondo e brilhante. Leleca apontou para ele, e o dedinho bateu de leve no vidro.
— Sol — disse Alex, e apontou também. — Amarelo e laranja. Quentinho como o sol.
Leleca repetiu o gesto. Toc. Depois olhou para o pai e, sem falar nada, tocou de novo no azul e em seguida no amarelo da areia. Era um convite: “agora você”. E Alex entrou na brincadeira. Ele apontou para o azul, depois para o amarelo, e por último para o sol.
— Azul, amarelo, laranja — falou, trocando de cor a cada gesto, igualzinho ao que Leleca tinha feito.
Os dois ficaram ali, um apontando e o outro repetindo, trocando de cor como quem troca de lugar num balanço. Toc, toc, toc. A cada rodada, Leleca ria mais e Alex imitava o som com a boca, fazendo coro. Parecia uma conversa de passarinhos, um fio de cacarejo e toque e clique que enchia a sala de som e afeto.
Num momento, Leleca parou. Tirou o dedinho da tela e olhou para o tablet com uma expressão pensativa. Ele queria guardar aquela praia, mas não dentro do aparelho. Queria guardar em outro lugar, um lugar mais perto e mais macio. Com cuidado, esticou o bracinho e empurrou o tablet para o outro lado do sofá. O movimento foi tão delicado que o aparelho só deslizou um pouquinho sobre a almofada. Leleca esperou o pai entender, e Alex, com um sorriso manso, ajudou a ajeitar o tablet bem no cantinho, onde ninguém ia pisar.
— Guardou, filho? — perguntou Alex, com a voz mansa.
Leleca não respondeu com palavra, mas fez que sim com a cabeça, um gesto curto e decisivo. Ele tinha escolhido guardar a praia ali, pertinho do sofá, para olhar de novo outro dia. Agora o que ele queria mesmo era outra coisa.
O pai Alex abriu os braços e puxou Leleca para um abraço bem apertado. O menino sentiu o corpo grande envolvendo o seu, como se fosse uma segunda manta, mais quente ainda. Alex começou a balançar devagar, de um lado para o outro, um balancinho bem pequeno, quase um ninar. Leleca suspirou satisfeito, um suspiro comprido que saiu lá do fundo do peito, e fechou os olhinhos.
Com os olhos fechados, ele ainda via as cores: o azul do mar, o amarelo da areia, o laranja do sol. Mas agora sentia também o calor do quarto, o cheirinho bom do pai, o balanço que embalava. Era como se a praia tivesse entrado na sala e se transformado em carinho. Ele nem percebeu quando o corpo ficou mais molinho, mais entregue. Só sentiu a mão grande do pai fazendo cafuné na sua cabeça, alisando o cabelo loiro devagarinho.
— Boa noite, praia — sussurrou Alex, brincando. — Boa noite, Leleca.
Leleca não abriu os olhos, mas um sorriso pequeno apareceu nos lábios. Ele estava seguro, aquecido, e dentro dele morava a lembrança do dia que tinham construído juntos: os toques, as cores, as descobertas trocadas. Lá fora o vento frio continuava soprando, mas dentro da sala só havia o quentinho daquele abraço e a certeza de que amanhã o tablet estaria lá no sofá, esperando por mais um jogo de apontar e rir.