História personalizada

Lumi e a Divisão Justa das Pedrinhas

2 horas atrás

Lumi correu para o parquinho quando viu um grupo de crianças agachadas perto do escorregador. No chão, um saco de pano derramava pedrinhas coloridas: vermelhas, azuis, amarelas, verdes. Todo mundo queria pegar as mais bonitas ao mesmo tempo. Mãos pequenas puxavam e empilhavam, sem ninguém combinar nada.

Ela se aproximou devagar e observou. Uma menina juntava todas as pedrinhas brilhantes só para ela. Outro menino tentava tirar uma pedra da mão de um amigo. Lumi sentiu um aperto no peito. Aquilo não parecia justo. Como é que dava para brincar assim?

Ela ficou ali parada, olhando para as pedras espalhadas e para as crianças apressadas. Será que tinha um jeito de todo mundo se divertir de verdade, sem ninguém ficar triste?

Capítulo 1: A Mistura no Saco

O barulho das vozes chegou antes de Lumi avistar o grupo. Perto do escorregador vermelho, três crianças estavam agachadas em volta de um saco de pano caído no chão. Pedrinhas coloridas estavam espalhadas pela terra: algumas vermelhas como cereja, outras azuis como o céu no verão, amarelas que brilhavam como gema de ovo e verdinhas da cor de folha nova.

Uma criança de camiseta laranja pegava as pedrinhas azuis o mais rápido que conseguia e já tinha uma pilha bem alta do seu lado. Outra tentava catar as amarelas, mas a mão encontrava só as que sobravam. A terceira olhava para o chão com a testa franzida, sem conseguir pegar quase nenhuma.

Lumi sentiu um aperto no coração. Não parecia certo que uma pessoa ficasse com tantas pedrinhas bonitas enquanto outra quase não tinha nada para brincar. Ela respirou fundo, deu dois passos à frente e se agachou perto do grupo.

— Oi! — disse ela, com a voz calma. O cheiro de grama cortada veio com o vento, misturado com o perfume doce de uma flor que crescia perto do banco de madeira.

A criança de camiseta laranja continuou pegando as azuis, sem olhar para Lumi.

Ela esticou o braço devagar e segurou o saco de pano que ainda tinha algumas pedrinhas dentro. As outras crianças pararam de mexer nas pilhas e olharam para ela. Lumi balançou o saco de um lado para o outro, ouvindo o som das pedrinhas se chocando. Clique-clique-clique. Era um barulho gostoso, como uma música pequenina.

— Tenho uma ideia — disse Lumi, virando o saco com cuidado e deixando cair de volta todas as pedrinhas no chão. As cores se misturaram como um arco-íris desmontado. — Vamos pegar uma de cada vez? Assim fica igual para todo mundo.

A criança que estava com a testa franzida levantou o olhar. A de camiseta laranja finalmente largou a pilha azul e cruzou os braços.

— Mas eu já peguei as minhas — resmungou.

Lumi olhou para a pilha azul, depois para as mãos vazias da outra criança e balançou a cabeça devagar. O sol batia nas pedrinhas e fazia as cores dançarem no chão de terra batida.

— Se a gente misturar de novo e cada um pegar uma por vez, ninguém fica sem as cores boas — explicou ela, apontando para as pedrinhas vermelhas. — Olha, tem bastante para todo mundo brincar junto.

Uma joaninha pousou bem perto da pilha azul, como se estivesse curiosa para ver o que ia acontecer. A criança que antes não conseguia pegar nada sorriu um pouco. A outra, que estava no meio da confusão, sentou na terra e esperou.

A menina de camiseta laranja descruzou os braços.

— Tá bom. Mas como a gente vai fazer?

Lumi sentiu um calorzinho bom dentro do peito. Não era todo mundo que topava mudar de ideia assim tão rápido. Ela estendeu o saco vazio no chão e começou a juntar todas as pedrinhas de volta, com movimentos cuidadosos, como quem guarda um tesouro. As crianças olhavam, e o parquinho ficou em silêncio por um instante — só o vento balançando as folhas da árvore grande perto do portão e um passarinho cantando no alto do poste.

Capítulo 2: A Primeira Separação

Lumi ajoelhou na terra fresca e começou a separar as pedrinhas em três pilhas, uma para cada criança do grupo. Seus joelhos sentiram a umidade gostosa do chão, que ainda guardava um pouco da sombra da manhã. Ela pegou uma pedrinha vermelha e colocou na primeira pilha. Depois uma azul na segunda. E uma amarela na terceira. Depois repetiu: vermelha, azul, amarela. Vermelha, azul, amarela.

— Assim cada pilha vai ficar com uma cor diferente — explicou Lumi, sem parar de dividir. O saco vazio descansava dobrado ao seu lado, e o vento brincava de levantar uma pontinha do pano.

As crianças observavam. A menina que antes estava triste agora acompanhava cada pedrinha com os olhos arregalados. O menino de camiseta laranja fungou, ainda um pouco desconfiado, mas não disse nada.

Foi quando uma mão pequena se esticou rápido e tentou tirar uma pedrinha azul extra da pilha do meio.

— Ei! — Lumi cobriu a pilha com a mão aberta, protegendo as pedrinhas como se fossem filhotes. — Não pode pegar mais do que já tem.

A criança que tentou era a mesma que antes acumulava as azuis. Ela fez um bico com a boca e puxou a mão de volta.

— Mas eu queria duas azuis — murmurou, olhando para o chão.

Lumi balançou a cabeça com firmeza, mas sem braveza. Ela arrumou as pedrinhas da pilha do meio que tinham se espalhado com o susto e continuou:

— Se você pegar duas, outra pessoa fica sem nenhuma azul. Não é justo.

A menina que estava quieta até aquele momento falou baixinho:

— Eu nunca pego azul…

Lumi apontou para a pilha que estava montando perto dela. Já tinha duas azuis ali, esperando a vez.

— Viu? Agora você vai ter também. É só a gente esperar a rodada.

O menino de camiseta laranja olhou para a própria pilha, que ainda não tinha nenhuma azul, e coçou a cabeça.

— Mas e se não chegar a minha vez?

— Chega sim — respondeu Lumi, mostrando o saco dobrado. — Olha quantas ainda tem aqui dentro. A gente continua revezando até acabar tudo.

Ela desdobrou o saco com um puxão seco e o som fez ploft. As crianças riram do barulho. Lumi sorriu também, sentindo que a confusão estava se desmanchando como nuvem depois da chuva.

Então ela continuou a divisão. Vermelha, azul, amarela. Vermelha, azul, amarela. O sol desenhava sombras no chão enquanto as pilhas cresciam devagar, lado a lado, todas com quase o mesmo tamanho. Uma borboleta amarela passou voando baixinho, como se quisesse conferir se as pedrinhas da sua cor estavam bem cuidadas.

— Pronto — disse Lumi, quando as três pilhas ficaram prontas. — Agora vocês três têm a mesma quantidade. Podem conferir.

Ela se levantou, limpou os joelhos sujos de terra e deu um passo para trás. As crianças se aproximaram das pilhas, olhando cada montinho com atenção. Dava para ver nos olhos delas que algo tinha mudado: não era mais uma corrida para pegar o máximo possível. Agora era uma brincadeira que começava do mesmo ponto de partida.

Capítulo 3: O Pequeno Desacordo

Uma mão pequena avançou rápido e bagunçou as três pilhas de uma vez. Pedrinhas azuis, vermelhas e amarelas se misturaram de novo no chão de terra. A criança que fez isso cruzou os braços e deu um passo para trás.

— Eu queria as mais redondas. Essas aí não são iguais — disse ela, apontando para as pedrinhas que antes estavam separadas.

Lumi ficou parada. Olhou para o chão desarrumado, para as pedrinhas que tinham rolado para longe umas das outras, para a poeira que ainda subia devagar. Suas mãos descansaram sobre os joelhos. Ela não respondeu na mesma hora. Sentiu um calor subir pelo pescoço, mas respirou fundo três vezes antes de falar qualquer coisa.

— Tá bagunçado agora — murmurou uma outra criança, cutucando uma pedrinha com a ponta do tênis.

Lumi se levantou. Sacudiu a terra das mãos e olhou ao redor do parquinho. O sol batia forte no centro, mas perto da árvore grande havia um banco de madeira comprido, todo sombreado. As folhas faziam desenhos de luz que se mexiam devagar no chão.

— Vamos terminar lá onde dá para ver melhor — Lumi disse, apontando para o banco.

Ela se abaixou e começou a recolher as pedrinhas espalhadas, colocando-as de volta no saco de pano. As outras crianças fizeram o mesmo, uma catando as vermelhas, outra juntando as azuis e amarelas que estavam mais longe. A criança que tinha bagunçado tudo ficou um instante parada, depois se agachou também e entregou uma pedrinha bem redonda para Lumi.

— Essa é a mais bonita — falou baixinho.

Lumi colocou a pedrinha no saco junto com as outras e deu um sorriso curto. O grupo caminhou junto carregando as pedrinhas nas mãos em concha, com cuidado para não derrubar nenhuma no caminho. Uma pedrinha verde escapou e Lumi parou para pegá-la, agachando rápido e prendendo-a entre os dedos antes que rolasse para o canteiro de flores.

O banco de madeira era fresco por causa da sombra. Lumi sentou-se primeiro e as outras crianças se espalharam ao redor, uma de cada lado, uma no chão apoiando as costas na perna do banco. A luz suave que passava entre as folhas mudava a cor das pedrinhas: as vermelhas pareciam mais escuras, as azuis ganhavam um tom de tarde, as amarelas brilhavam menos, mas ficavam mais macias de olhar.

— Agora vou fazer de novo — Lumi anunciou, virando o saco com cuidado sobre o banco.

Ela separou as pedrinhas com a ponta dos dedos, uma por uma, colocando cada cor em um cantinho do banco. Primeiro as vermelhas, depois as azuis, depois as amarelas. As verdes ficaram no meio, esperando a vez. Dessa vez ela não fez pilhas altas. Espalhou as pedrinhas em fileiras, como se fossem soldadinhos de brinquedo enfileirados antes de uma batalha.

— Assim dá para ver direitinho quantas tem de cada — explicou, passando o dedo sobre as fileiras.

Uma joaninha pousou na beirada do banco, bem perto das pedrinhas amarelas. Todas as crianças pararam para olhar. Ela andou um pouco, abriu as asas e voou para a árvore. Lumi aproveitou o silêncio para continuar organizando.

Capítulo 4: A Nova Maneira de Contar

Lumi olhou para as fileiras de pedrinhas alinhadas no banco e percebeu que separar sozinha não estava funcionando. Alguém sempre achava que a divisão estava errada. Ela bateu a mão na perna e teve uma ideia.

— Vamos fazer diferente agora. Cada um escolhe uma pedrinha por vez. Um de cada vez, em ordem.

As crianças se entreolharam. A que tinha bagunçado tudo antes pareceu interessada e sentou mais perto do banco.

— Eu começo contando e passo o saco — Lumi disse, pegando o saco de pano vazio.

Ela colocou todas as pedrinhas dentro de novo, sacudiu um pouco e passou o saco para a criança à sua esquerda. Depois falou:

— Agora você tira uma sem olhar e põe na sua pilha. Depois passa para a próxima.

A primeira criança enfiou a mão no saco e tirou uma pedrinha verde. Colocou-a no banco, bem na beirada. Passou o saco adiante. A segunda criança tirou uma vermelha e fez sua pilha. A terceira, uma azul. Quando o saco chegou a Lumi, ela enfiou a mão e tirou uma amarela.

— Rodada um! — Lumi anunciou, erguendo a pedrinha amarela no alto antes de colocá-la na sua pilha.

Na segunda rodada, a primeira criança puxou uma pedrinha azul. A segunda tirou uma vermelha. A terceira tirou uma pedrinha tão redondinha que quase escapou dos dedos. Lumi tirou uma verde e fez uma voz engraçada:

— Olha só, a mesma cor da grama!

As crianças riram. O som da risada assustou um passarinho que estava na árvore, e ele voou batendo as asas.

Na terceira rodada, quando a segunda criança foi tirar sua pedrinha, uma escapuliu da mão e caiu no chão. Era uma pedrinha azul escura que bateu na madeira do banco e rolou para longe, indo parar perto de uma poça de terra seca.

— Perdeu! — gritou uma criança.

Lumi já estava de pé. Correu até a poça, agachou-se e catou a pedrinha azul. Mas quando foi levantar, o tênis escorregou numa folha seca e ela quase caiu sentada. Recuperou o equilíbrio apoiando a mão no tronco da árvore e voltou rindo, com a pedrinha apertada na palma da mão.

— Achou! — comemorou a criança que tinha deixado a pedrinha cair.

Lumi entregou a pedrinha azul de volta e sentou-se no banco, ainda com a respiração um pouco rápida da corrida.

— Vamos continuar devagar para não perder nenhuma — falou, marcando com o dedo quantas pedrinhas já estavam em cada pilha.

O ar estava mais calmo agora. Até o vento tinha parado de soprar. As crianças esperavam a vez com atenção, cada uma de olho no saco de pano, contando em silêncio quantas pedrinhas ainda faltavam. A quarta rodada começou. Depois a quinta. Na sexta rodada, a criança que tinha bagunçado tudo antes puxou uma pedrinha vermelha e disse:

— Essa vai ser a capitã do meu time.

Lumi sorriu. As pilhas cresciam iguais no banco de madeira, cada uma com a mesma quantidade de pedrinhas. As cores estavam misturadas dentro de cada pilha, mas ninguém reclamava mais. Uma criança cutucou Lumi e perguntou:

— Quando acabar a gente pode jogar de verdade?

— Pode — respondeu Lumi, passando o saco para a próxima rodada.

Capítulo 5: O Início da Brincadeira

Lumi enfiou a mão no bolso do short e guardou o saquinho de pano dobrado. No banco de madeira, os montinhos de pedrinhas estavam prontos: cada criança tinha exatamente seis, com cores misturadas. Ela correu os olhos rapidamente de um monte para o outro e sentiu um calorzinho gostoso no peito, daqueles que aparecem quando uma ideia dá certo. Ninguém ficou com mais, ninguém ficou com menos.

— Vem! Vamos pro meio do parquinho! — chamou, fazendo um gesto largo com o braço.

As crianças pegaram suas pedrinhas e correram atrás dela. Formaram um círculo perto do escorregador, onde o chão de terra batida era mais plano e ainda estava morno do sol da tarde. Lumi reparou na menina que ficara mais quieta durante toda a organização. Ela segurava as pedrinhas apertadas contra a barriga, os olhos arregalados, como se ainda não acreditasse que podia brincar também.

— Toma, você começa — Lumi estendeu uma pedrinha amarela bem redonda para ela, a primeira do jogo.

A menina abriu um sorriso e aceitou. Lumi então entregou as outras pedrinhas, uma por uma, até todo mundo ter as suas nas mãos.

— Agora a gente pode jogar de verdade — disse, e a voz saiu mais firme do que ela esperava.

Alguém bateu uma pedrinha na outra. Toc, toc. O som era seco e oco, parecia o barulho de duas castanhas se encontrando. Outra criança experimentou bater mais forte: TOC! Ecoou pelo parquinho vazio. Em poucos segundos, todos estavam testando os sons, criando uma pequena orquestra de estalos. Umas pedrinhas faziam barulho agudo, outras mais grave. Lumi riu quando uma pedrinha verde escapou da mão de um menino e quicou na terra.

Ela deu um passo para trás e ficou observando. As crianças tinham se esquecido de quem pegou o quê, de quem tinha mais ou menos. Só queriam brincar. O sol começava a descer atrás das árvores do parque, e uma luz dourada pintava tudo: as pedrinhas brilhavam como se fossem de vidro, as sombras ficavam compridas no chão. O vento trouxe um cheiro fresco de terra e grama.

— Olha o que eu sei fazer! — gritou uma criança.

Ela jogou uma pedrinha azul para o alto e tentou pegá-la com a mesma mão. Errou. A pedrinha caiu na terra, mas ninguém riu dela. Outra criança tentou também, jogando uma vermelha. Dessa vez, conseguiu agarrar no ar. Aos poucos, o jogo virou aquele: jogar a pedrinha para cima e tentar pegar antes que caísse. As cores giravam no ar — azul, amarelo, vermelho, verde — como fogos de artifício pequenininhos.

Lumi continuou de fora, o coração batendo leve de contentamento. Ela viu a menina quieta rindo alto, as pedrinhas subindo e descendo. Viu a criança que tinha bagunçado as pilhas agora ensinando outra a jogar com a mão esquerda. Viu todo mundo misturado, sem pressa, sem disputa.

Uma pedrinha amarela rolou até o pé de Lumi. Ela se abaixou, pegou a pedrinha e sentiu sua superfície lisinha na palma da mão. Em vez de guardá-la, caminhou para dentro do círculo.

— Posso jogar também? — perguntou.

— Claro! Você que inventou a brincadeira! — respondeu uma criança.

Lumi sorriu e jogou a pedrinha bem alto, mais alto que todas as outras. Ela subiu feito uma estrela amarela contra o céu alaranjado. Quando caiu, Lumi esticou a mão e a pegou no ar. O grupo aplaudiu. E então continuaram jogando, juntos, até as pedrinhas virarem pontos coloridos dançando na luz do fim da tarde.

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