História personalizada

A Nuvem Macia no Colo de Voce

Para Ethan 19 horas atrás

No quarto com a luz fraquinha em Itajaí, o dia lá fora está frio e bem nublado. O ar úmido pede um agasalho leve e dá vontade de ficar bem pertinho de quem a gente ama.

O menininho, tão pequenininho, se ajeita no colo de Voce e segura o cobertor macio com as duas mãozinhas. Ele aperta o tecido devagar, sentindo o quentinho do abraço e o cheirinho limpo do quarto.

Hoje, a brincadeira vai ser assim: o cobertor vira nuvem, e o colo de Voce vira o céu calmo que balança a nuvem. Juntos, eles vão flutuar num ritmo gostoso de vai e vem.

Capítulo 1: O Primeiro Aperto

O quarto estava com aquela luz fraquinha de dia nublado, quase cinza, que entrava pela janela e deixava tudo com cara de soneca. Lá fora, o vento frio de Itajaí soprava devagar, mas dentro do quarto o ar estava quentinho, daquele jeito que só um abraço sabe fazer. Voce estava sentada na poltrona perto da janela, com o corpo bem acomodado e os braços prontos para segurar o menininho.

Ele olhou para Voce com aqueles olhinhos atentos, como quem já sabe que vai ganhar colo. Esticou os bracinhos para cima, abrindo e fechando as mãos no ar — o gesto mais antigo do mundo para pedir "me pega". Voce sorriu e puxou ele devagar, sentindo o corpinho pequeno se encaixar no peito dela como se fosse o lugar mais certo do mundo.

— Vem, meu bem. Vem ficar quentinho aqui com Voce.

O menininho se ajeitou no colo, as perninhas dobradas e a cabeça encostada no ombro de Voce. Ele respirou fundo uma vez, soltando o ar com um suspiro bem pequeno, quase um "ah". Mas aí os olhinhos dele encontraram outra coisa: o cobertor.

O cobertor estava ali do lado, dobrado em cima do braço da poltrona, esperando. Era um cobertor macio, daqueles que parecem ter nuvens escondidas dentro do tecido. Ele era azul clarinho, quase cinza, bem parecido com a cor do céu quando fica bem nublado e a gente fica olhando pela janela sem pressa de nada.

O menininho olhou para o cobertor. Depois olhou para Voce. Depois olhou de novo para o cobertor. Ele esticou os dedinhos e tocou a ponta do tecido, só de leve, como se estivesse pedindo licença.

Voce entendeu na hora e puxou o cobertor para mais perto.

— Quer o cobertor, filhote? Pega.

Ele não precisou ouvir duas vezes. As duas mãozinhas agarraram o tecido com força, os dedinhos se fechando em volta da ponta do cobertor como se estivessem segurando um tesouro. Ele apertou. Apertou bem devagar, sentindo a maciez no meio dos dedos e na palma da mão.

Voce começou a balançar o corpo, quase sem perceber. Era um balanço pequeno, um vai-e-vem que vinha natural, como se o corpo dela já soubesse a receita de fazer um bebê se sentir seguro. Para frente. Para trás. Para frente. Para trás.

O menininho sentiu o movimento e ficou quietinho, concentrado. Ele olhava para o cobertor apertado nas mãos, vendo o tecido se mexer conforme o balanço de Voce. Quando o corpo ia para frente, o cobertor descia um pouquinho. Quando voltava para trás, o cobertor subia de novo. Subia e descia. Subia e descia.

Ele piscou devagar, ainda segurando o cobertor. Os dedinhos apertavam o tecido com cuidado, como se estivessem massageando a nuvem azul. A cada apertão, a maciez respondia, e ele sentia o calor do tecido se espalhando pelas mãos, subindo pelos bracinhos e chegando até a barriga. Era um calor gostoso, que vinha de fora e de dentro ao mesmo tempo.

Voce continuava balançando, e o menininho continuava olhando. Ele levou o cobertor mais para perto do rosto, encostando o tecido na bochecha. Fechou os olhos por um segundo e abriu de novo, como quem prova um doce bem devagar para sentir melhor o gosto.

— Tá macio, né? — Voce falou baixinho, a voz quase um sussurro no ouvido dele.

Ele não respondeu com palavras, mas o corpo falou. Os ombrinhos dele relaxaram, a cabecinha ficou mais pesada no ombro de Voce, e os dedinhos continuaram apertando o cobertor no mesmo ritmo do balanço.

O quarto foi ficando ainda mais silencioso. Só dava para ouvir a respiração calma de Voce e o barulhinho de tecido sendo apertado pelas mãozinhas pequenas. Lá fora, o dia continuava cinza e frio, mas ali dentro estava tudo quentinho, macio e seguro.

O menininho puxou o cobertor mais um pouquinho, como se quisesse guardar aquela sensação para sempre. Ele apertou de novo. E de novo. E o balanço continuava, suave, embalando ele num ritmo que parecia dizer: "tá tudo bem, tá tudo bem, tá tudo bem".

Capítulo 2: A Nuvem Que Sobee Desce

O balanço continuava. Para frente, para trás. Para frente, para trás. O menininho já estava acostumado com o ritmo, o corpinho dele se movendo junto com Voce como se os dois fossem um só. Mas agora ele queria mais. Ele queria ver o cobertor voar.

Puxou o tecido com as duas mãos, levantando ele bem alto, até cobrir o nariz. Depois abaixou. Levantou de novo. Abaixou. Os olhinhos acompanhavam o movimento, indo e vindo, indo e vindo. Era como se ele estivesse descobrindo que aquele pedaço de pano macio podia fazer mágica.

Voce percebeu a brincadeira e entrou nela na mesma hora. A voz saiu baixinha, quase um segredo:

— Olha só... parece uma nuvem.

O menininho parou por um instante e olhou para Voce. Depois olhou para o cobertor. Uma nuvem? Ele piscou uma vez, bem devagar, como se estivesse processando aquela ideia nova.

Voce continuou:

— Uma nuvem bem macia. Uma nuvem que sobe e desce. Sobeee... e desce. Sobeee... e desce.

A voz foi ficando mais lenta, mais arrastada, acompanhando o movimento do balanço. O menininho sentiu aquela música de palavras e começou a imitar. Levantou o cobertor bem alto quando Voce falou "sobeeee", e abaixou devagarzinho quando ela falou "e desce".

— Isso! — Voce sorriu. — A nuvem tá voando.

Ele repetiu o movimento. Levantou. Abaixou. Levantou. Abaixou. Mas dessa vez ele fez diferente: puxou o cobertor para perto do rosto e esfregou a bochecha no tecido, bem de leve. O tecido roçou na pele macia dele, e ele sentiu o cheirinho limpo — um cheiro que lembrava sabão, sol guardado e colo quentinho. Era um cheiro bom, que dava vontade de fechar os olhos e ficar ali para sempre.

Ele piscou de novo, dessa vez mais devagar ainda. As pestanas desceram e subiram como se estivessem com preguiça, e quando os olhos abriram de novo, ele estava sorrindo. Um sorriso pequenininho, quase escondido atrás do cobertor.

— A nuvem é bem macia, né? — Voce sussurrou, a boca perto da orelha dele. — Macia que nem algodão. Que nem sonho.

Ele apertou o cobertor mais uma vez, sentindo a maciez escorregar entre os dedos. Depois levantou ele de novo, bem alto, e deixou cair devagarzinho em cima do próprio rosto. Ficou lá, escondido embaixo da nuvem azul, respirando aquele cheirinho bom e ouvindo a voz de Voce.

— Cadê o menininho? — Voce brincou, fingindo procurar. — Sumiu...

Ele ficou quietinho embaixo do cobertor. Mexeu os dedinhos dos pés, que apareciam do outro lado, mas o resto do corpo continuava escondido.

— Achou! — Voce puxou o cobertor de leve, descobrindo o rostinho dele.

Ele soltou uma risadinha curta, um "há" bem pequeno que saiu junto com o ar. Depois agarrou o cobertor de novo e puxou para perto do peito, abraçando o tecido como se fosse um bichinho de pelúcia.

O balanço continuava. Para frente, para trás. Para frente, para trás. Mas agora o ritmo tinha mudado um pouquinho — estava mais lento, mais gostoso, mais parecido com um embalo de dormir.

O menininho olhou para a janela. Lá fora, o céu continuava cinza e as nuvens de verdade estavam paradas, bem diferentes da nuvem dele, que subia e descia no colo de Voce. Ele apertou o cobertor mais uma vez, sentindo o tecido macio responder ao toque. Depois encostou a cabeça no peito de Voce, bem no lugar onde dava para ouvir o coração batendo.

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

O coração de Voce fazia tum-tum. O cobertor fazia sobe-e-desce. E o menininho, com os olhinhos quase fechados, sentia tudo ao mesmo tempo: o calor do colo, a voz calma, o cheiro limpo, a maciez da nuvem azul.

Voce continuou falando baixinho, a voz virando quase um cantinho:

— A nuvem sobe... e desce... sobe... e desce... e o menininho fica quentinho no colo de Voce...

Ele apertou o cobertor uma última vez, bem de leve, e soltou um suspiro comprido. O corpinho foi ficando mais mole, mais entregue, mais confiante. A nuvem azul estava ali, segura nas mãozinhas dele, e Voce estava ali, segurando ele inteiro.

Capítulo 3: Olhando o Movimento

O balanço continuava. Para frente, para trás. Para frente, para trás. O menininho apertava o cobertor com as duas mãozinhas, sentindo o tecido macio amassar entre os dedos. Ele já tinha feito isso uma vez, e foi tão gostoso que queria de novo. Voce segurava ele firme, o bracinho passando por baixo das perninhas, a mão apoiando as costas, e o balanço ia e vinha como se o quarto inteiro estivesse flutuando.

Foi aí que aconteceu. O menininho olhou para o cobertor e viu. Viu de verdade. Quando Voce balançava para frente, o cobertor subia. Subia um pouquinho só, mas subia. E quando Voce balançava para trás, o cobertor descia. Subia e descia. Subia e descia. Ele ficou quietinho, os olhinhos bem atentos, a boca entreaberta de curiosidade. O cobertor não estava parado — ele se mexia junto com o balanço, como se estivesse vivo.

Ele soltou um sonzinho baixinho, quase um "oh" que não chegou a sair inteiro. Os dedinhos se abriram um pouco, largando o cobertor, e ele ficou só olhando. O tecido azul clarinho subia e descia, subia e descia, e o movimento era tão suave que parecia mesmo uma nuvem flutuando no céu. Voce percebeu que ele estava concentrado e diminuiu o balanço um pouquinho, para ele poder ver melhor.

— Olha só — Voce sussurrou, a voz calminha bem perto do ouvido dele. — O cobertor está dançando com a gente.

O menininho piscou devagar, uma vez, duas vezes. Ele esticou os dedinhos de novo, não para apertar, mas só para tocar. A pontinha dos dedos encostou no cobertor bem de leve, como se ele quisesse sentir o movimento sem atrapalhar. O tecido roçou na pele dele, macio, e ele sentiu o calor que vinha de baixo, do abraço de Voce, e o calor que vinha de cima, do próprio cobertor, e tudo ficou tão quentinho que ele suspirou.

A mãozinha dele subia e descia junto com o cobertor, acompanhando o movimento. Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. Ele olhava para a mão, olhava para o cobertor, olhava para Voce. Os olhinhos brilhavam na luz fraquinha do quarto, e ele parecia querer entender aquilo tudo — como é que uma coisa subia e descia sem ninguém puxar? Mas ele era bem pequenininho ainda, e entender não era o mais importante. O mais importante era sentir.

Ele recostou a cabecinha no peito de Voce, buscando aquele lugar quentinho onde o coração batia. O ouvido encostou no tecido da blusa de Voce e ele ouviu o tum-tum, tum-tum, misturado com o balanço. O cobertor continuava subindo e descendo bem na frente dos olhos dele, e agora ele não olhava mais com curiosidade — olhava com calma, como quem já conhece um segredo e guarda ele bem guardadinho.

Os dedinhos começaram a brincar com a beirada do cobertor. Ele puxava um pouquinho, soltava, puxava de novo. O tecido fazia uma ondazinha, e ele achou graça. Um risinho pequenininho escapou, daqueles que não têm som, só um biquinho que se abre e os olhinhos que apertam. Voce sorriu e apertou ele de leve, o abraço ficando ainda mais gostoso.

Do lado de fora, o vento de Itajaí continuava soprando, e as nuvens cinzentas cobriam o céu. Mas dentro do quarto, a única nuvem que importava era aquela que subia e descia no colo de Voce, segura pelas mãozinhas mais curiosas e mais quentinhas do mundo.

Capítulo 4: A Terceira Nuvem

O menininho já tinha feito o cobertor virar nuvem uma vez. Depois, tinha visto ele subir e descer com o balanço pela segunda vez. Agora, as mãozinhas procuravam o tecido de novo, os dedinhos se abrindo e fechando no ar até encontrar a beirada macia. Ele agarrou com força — não uma força de pressa, mas uma força de vontade, de quem quer fazer de novo porque é bom.

Era a terceira vez. A terceira nuvem.

Voce sentiu o movimento e ajustou o balanço, o corpo se embalando para frente e para trás no mesmo ritmo de antes. O menininho puxou o cobertor para pertinho do rosto, esfregando a bochecha no tecido. O cheirinho limpo de sabão entrou pelo narizinho dele, e ele fechou os olhos por um segundinho só, sentindo aquilo.

— A nuvem está flutuando — Voce disse, a voz tão calma que mais parecia um vento suave. — Flutuando bem devagar, para cima e para baixo. Para cima e para baixo.

O menininho apertou o cobertor com mais força ainda, os dedinhos fazendo montinhos de tecido. Ele balançava junto com Voce, o corpinho mole e entregue, e agora ele já sabia o que ia acontecer: o cobertor ia subir, depois ia descer. Subia e descia. Subia e descia. E ele estava pronto. Ele queria aquilo.

Quando o balanço foi para frente, ele sentiu o cobertor subir e deixou os braços acompanharem. Quando o balanço foi para trás, ele sentiu o cobertor descer e deixou os braços descerem também. Ele estava balançando junto, não só no colo de Voce, mas com a nuvem também. Ele e a nuvem. A nuvem e ele.

Um suspirinho pequenininho saiu da boca dele — um suspiro de quem está tão confortável que o ar sai sozinho, sem pedir licença. O corpinho foi ficando mais mole, mais pesado, como se cada pedacinho dele estivesse derretendo no calor do abraço. Os ombrinhos caíram, as perninhas ficaram soltas, os bracinhos abraçaram o cobertor contra o peito.

E então ele fez um gesto que Voce conhecia bem. A cabecinha foi virando devagar, procurando, até encostar no peito de Voce. Não foi um encostar qualquer — foi um encostar de pertencimento, de quem sabe que aquele é o lugar dele. A orelhinha ficou bem no lugar onde o coração batia, e ele ouviu de novo o tum-tum, tum-tum, tum-tum.

— Isso, meu bem — Voce sussurrou, e a voz saiu tão baixinha que mais vibrou no peito do que saiu pela boca. — A nuvem está aqui, e você também.

O menininho sentiu a vibração da voz no peito de Voce. Era uma cócega gostosa, um tremor que entrava pelo ouvido e se espalhava pelo corpo inteiro. Ele apertou o cobertor mais uma vez, mas agora o aperto era diferente — era um aperto de guardar, de manter pertinho, de não deixar escapar a sensação boa.

Os olhinhos começaram a ficar pesados. Ele piscou devagar, uma vez, e as pálpebras demoraram para subir de novo. Piscou outra vez, e a demora foi ainda maior. A luz fraquinha do quarto entrava pelas frestas da janela, e o dia nublado de Itajaí continuava lá fora, mas aqui dentro tudo era paz. O cobertor subia e descia, subia e descia, e o menininho subia e descia junto.

Voce continuou o balanço, bem leve, quase um ninar. A mão fazia carinho nas costinhas dele, subindo e descendo no mesmo ritmo do cobertor. Ele sentiu o carinho e soltou outro suspirinho, esse ainda menor que o primeiro. A boca ficou molinha, os dedinhos afrouxaram um pouco no cobertor, mas não largaram — ele não ia largar a nuvem dele.

A terceira nuvem tinha sido a mais gostosa de todas. E agora, com o corpinho quentinho e os olhinhos quase fechados, o menininho estava pronto para o que viesse depois — ou para nada, se nada quisesse vir. Só ele, Voce, o cobertor-nuvem e o balanço que não precisava parar nunca.

Capítulo 5: Olhos Quase Fechados

As mãozinhas apertavam o cobertor cada vez mais devagar. O menininho sentia o tecido macio encostar no rostinho, e um calor gostoso subia do peito até as bochechas. Lá fora, o vento frio de Itajaí continuava soprando, mas dentro do quarto estava tudo quentinho, tudo calmo, tudo seguro. Voce balançava ele no colo, e o movimento era tão leve que parecia que o chão tinha virado um barquinho flutuando num mar bem mansinho.

Ele puxou o cobertor um pouquinho mais para cima. As mãozinhas foram subindo devagar, arrastando o tecido pelo peito, pelo pescoço, até encostar no queixo. Os dedinhos seguravam a beirada do cobertor com uma força que ia diminuindo, diminuindo, como se até as mãos já estivessem com sono. Ele queria guardar a nuvem pertinho, bem juntinho do coração. A nuvem que subia e descia, a nuvem que balançava no colo de Voce, a nuvem que era macia e cheirosa e quentinha.

Os olhinhos dele estavam pesados. As pálpebras desciam um tiquinho, subiam de novo, desciam mais um pouquinho. O menininho olhava o quarto com a luz fraquinha, olhava o cobertor apertado nas mãos, olhava o rosto de Voce que estava tão perto. Depois os olhinhos fechavam por um instante, e abriam de novo, como se ele ainda quisesse ver a nuvem flutuando. Mas o corpo já estava mole, a cabecinha encostada no peito de Voce, o pescoço soltinho, os ombros caídos.

Voce continuava o balanço. Para frente, para trás. Para frente, para trás. A mão passava devagar nas costas dele, subindo e descendo, subindo e descendo. O menininho sentia cada passada de mão como se fosse uma onda mansa, daquelas que vêm na beirinha da praia e só molham os pés. O coração de Voce batia perto do ouvido dele, e era um som que ele já conhecia, um som que dizia "tá tudo bem, tá tudo bem" sem precisar falar nada.

As mãozinhas foram soltando o cobertor. Primeiro uma, que escorregou para o lado e ficou pendurada, molinha. Depois a outra, que ainda segurava um pedacinho mínimo de tecido entre o polegar e o indicador. O cobertor ficou no lugar, cobrindo o peito e os ombros, mas agora era Voce quem segurava ele ali, ajeitando as pontas com cuidado para não entrar vento.

O menininho soltou um suspiro. Foi um suspiro pequenininho, daqueles que saem quando o corpo finalmente desiste de ficar acordado. A boca ficou entreaberta, e a respiração foi ficando mais lenta, mais funda, mais calma. O ar entrava e saía com um ritmo que era quase igual ao balanço: vem e vai, vem e vai, vem e vai. O peitinho subia e descia embaixo do cobertor, e Voce conseguia sentir cada movimento encostado no seu próprio corpo.

Os olhinhos fecharam. Dessa vez, fecharam de verdade. As pálpebras desceram devagar e ficaram ali, quietinhas, como duas conchinhas protegendo os olhos. Os cílios estavam parados, e de vez em quando tremiam um tiquinho, como se o menininho ainda estivesse sonhando acordado. Mas logo pararam de tremer também, e o rostinho ficou sereno, sem ruguinha nenhuma na testa, sem bico, sem nada. Só paz.

Voce continuou o balanço mais um pouquinho. O corpo do menininho estava completamente entregue, pesando no colo com aquele peso bom de criança dormindo. As perninhas estavam encolhidas, e um pezinho escapou para fora do cobertor. Voce ajeitou o tecido cobrindo o pé, e o menininho nem se mexeu. A nuvem estava guardada, o balanço estava no ponto, o dia nublado lá fora não importava mais.

O quarto foi ficando em silêncio. Um silêncio que não era vazio, era cheio: cheio de respiração calma, cheio de calor de corpo pequeno, cheio de amor. O barulhinho do vento na janela parecia mais distante agora, como se até ele respeitasse a soneca. A luz fraquinha continuava entrando pelo vidro, pintando listras cinza-claras na parede e no chão, mas ninguém estava olhando mais.

Voce parou o balanço bem devagarinho, quase sem perceber. Ficou só o colo, parado e firme, segurando o menininho como quem segura o presente mais precioso do mundo. A mão continuava nas costas, sentindo a respiração subir e descer. O cobertor estava quentinho, e o menininho dormia com a boca entreaberta e as mãos soltinhas, uma de cada lado do corpo.

Lá fora, o dia continuava frio e nublado em Itajaí. As nuvens de verdade passavam devagar no céu, cinzas e pesadas, mas ninguém prestava atenção nelas. Porque dentro do quarto, a única nuvem que importava era aquela que o menininho tinha guardado tão bem no cobertor, tão perto do coração, tão segura no colo de Voce. E ali, no silêncio cheio de respiração calma, os dois ficaram. Só os dois. Só a paz. Só o soninho chegando.

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