História personalizada

Traços da Garoa

Para thalia 9 dias atrás

No quarto onde o calor úmido de trinta e dois graus entrava pela janela entreaberta, Thalia ouvia a garoa fina bater no telhado e se perguntava quem era exatamente agora, com paixões que pareciam se misturar sem aviso. O ar parecia mais denso por causa da umidade, e gotinhas de suor se formavam na sua testa enquanto ela observava o céu nublado lá fora. Ela se sentia dividida entre o que já conhecia de si mesma e o que ainda estava por descobrir.

Seu jeito visionário sempre a levava a conectar coisas que os outros viam separadas, como os movimentos da dança e a liberdade de estar na água. Mas hoje, em vez de sair correndo para contar, ela preferia manter essas ideias guardadas, reconhecendo que nem tudo precisava ser mostrado logo de cara. A humildade vinha naturalmente, como um jeito de respeitar o próprio tempo.

Ainda assim, havia uma tensão suave no peito, uma vontade de entender melhor quem estava se tornando enquanto a chuva continuava a cair sem pressa. Veronica estava por perto, mas Thalia não sabia se estava pronta para compartilhar o que pensava.

Capítulo 1: O Papel na Mesa

Thalia deixou o celular de lado na cama depois de passar alguns minutos olhando vídeos de coreografias que misturavam passos rápidos com movimentos mais lentos, como se o corpo pudesse flutuar. O ar do quarto estava quente e úmido, trinta e dois graus que pareciam aumentar com a garoa fina que caía lá fora. Ela sentiu o cheiro de terra molhada entrando pela janela entreaberta e se levantou devagar, descalça, notando que o chão estava um pouco úmido perto da parede. Caminhou até a escrivaninha, puxou a cadeira velha que rangia baixo e sentou. Abriu a gaveta de cima, tirou uma folha nova de papel sulfite e pegou o lápis HB que estava rolando para o canto. Colocou a folha na mesa, ajeitou com as duas mãos e começou a riscar o contorno de uma bailarina em pé, com a perna esquerda esticada e os braços se alongando para os lados. Aos poucos, os braços viraram ondas curvas que pareciam se mover na água, juntando o que ela gostava de dançar com a ideia de nadar em um rio ou piscina. O vento trouxe mais cheiro de terra e ela inspirou fundo, pressionando o lápis com força moderada para marcar as linhas principais. Ajustou o ângulo da mão várias vezes para que o movimento do quadril da bailarina parecesse fluir como uma braçada. Uma gota de suor escorreu pela têmpora direita por causa do calor, e ela a limpou com o dorso da mão sem largar o lápis. Decidiu adicionar detalhes simples do dia: desenhou uma janela aberta ao fundo da folha, com a cortina mexendo, e uma xícara esquecida em cima de uma mesa pequena ao lado da figura. Enquanto traçava as ondas, lembrou de uma música que tinha dançado na semana passada e tentou reproduzir o ritmo com o movimento do lápis, fazendo as linhas mais suaves em alguns trechos. Parou um instante, levantou da cadeira para buscar uma borracha que tinha caído no chão, voltou e sentou de novo, ajeitando a folha. Apagou um traço pequeno na perna da bailarina que estava torto e refez com calma, sentindo que o desenho ajudava a ver como suas coisas preferidas podiam se encaixar sem precisar escolher só uma. O som da garoa ficou mais constante, e ela inclinou a cabeça para ouvir melhor enquanto marcava a borda da xícara com um traço leve. Continuou adicionando curvas nas ondas, pensando que talvez o que parecia bagunçado dentro dela pudesse virar algo que fazia sentido no papel. Ajustou a posição do cotovelo na mesa para ter mais firmeza e pressionou o lápis de novo, criando mais uma linha que ligava o pé da bailarina a uma parte da onda. O calor deixava a mão um pouco pegajosa, mas ela seguiu desenhando sem pressa, mudando de posição na cadeira para ver o traço de outro ângulo.

Capítulo 2: Linhas que se Encontram

Ela se inclinou mais sobre a folha, aproximando o rosto para ver melhor os detalhes que já tinha feito, e começou a acrescentar traços que ligavam os passos da bailarina às braçadas na água. Notou que sua cabeça já via essas pontes antes mesmo de desenhá-las, como se as duas coisas sempre tivessem conversado em algum lugar. Mudou de posição na cadeira, cruzando os pés embaixo dela para ficar mais confortável, e ergueu o papel contra a luz fraca que entrava pela janela. Observou como as formas se completavam, as curvas das ondas parecendo continuar o movimento dos braços. O barulho da chuva ficou mais ritmado por alguns minutos, e Thalia acompanhou com um leve balançar de ombros, testando se aquele movimento combinava com o que estava saindo no desenho. Uma linha saiu torta perto do cotovelo da figura e ela apagou devagar, sem pressa de corrigir tudo de uma vez, usando a borracha com cuidado para não rasgar o papel. Com isso, incluiu uma pequena árvore ao fundo, perto da janela desenhada, lembrando que coisas comuns também mereciam espaço ali. O calor fazia o ar parecer mais denso, grudando a camiseta nas costas, mas ela continuou, motivada pela forma como tudo começava a conversar no papel. Levantou da cadeira outra vez, foi até a janela para fechar um pouco mais a abertura e impedir que a garoa molhasse o peitoril, depois voltou e sentou. Segurou o papel de lado, virando-o levemente para ver as sombras que as linhas criavam, e adicionou mais um traço que ligava a árvore ao chão molhado. Enquanto desenhava, balançou os pés devagar no ritmo da chuva, sentindo que o corpo queria se mexer mesmo sentada. Apagou outro pedacinho pequeno que não estava encaixando direito e refez a curva da onda, aceitando que nem tudo saía perfeito de primeira. O desenho agora mostrava a bailarina parecendo nadar e dançar ao mesmo tempo, e isso a fez continuar pressionando o lápis com mais firmeza em alguns pontos. Ajustou a posição da cadeira para ficar mais perto da luz e marcou com mais detalhes a borda da xícara, dando a impressão de que ela refletia a janela. O vento trouxe outro cheiro de terra e ela inspirou, sentindo que o quarto parecia um pouco mais leve depois daqueles traços novos. Continuou trabalhando nas conexões entre os passos e as braçadas, mudando o ângulo do lápis para criar linhas mais finas em alguns lugares e mais grossas em outros, até o desenho parecer contar uma história que misturava suas paixões sem precisar escolher entre elas.

Capítulo 3: Dobrar e Guardar

Thalia passou o dedo indicador ao longo da última linha que completava a onda saindo do braço da bailarina, sentindo o papel um pouco amassado pela umidade do ar. O calor de trinta e dois graus deixava o quarto abafado, e ela respirou fundo antes de afastar a cadeira devagar. Dobrou a folha com atenção, primeiro ao meio, depois nas laterais, para que o desenho ficasse protegido sem marcas fortes. Pegou o livro grosso que ficava na prateleira alta da escrivaninha, aquele que não abria desde o início das aulas, e abriu no meio das páginas centrais. Colocou o papel dobrado ali, fechou o volume e o devolveu ao lugar sem pressa, sentindo que por enquanto aquilo era suficiente. A decisão de guardar o desenho a fez sorrir de leve enquanto se levantava, o corpo ainda quente da concentração.

Ela caminhou até a janela, os pés descalços sentindo o chão levemente úmido onde a garoa havia entrado mais cedo. Segurou a moldura de madeira e puxou o vidro só um pouco mais, deixando uma fresta pequena para o vento continuar passando, mas evitando que as gotas finas molhassem o peitoril. O cheiro de terra molhada veio mais forte e ela ficou parada ali um instante, observando as nuvens leves que cobriam o céu. O gesto simples de fechar a janela a fez reconhecer que nem tudo precisava ser mostrado logo, como se a escolha de proteger o desenho fosse parte do que ela estava entendendo sobre si mesma.

Voltou até a cama, ajeitou o travesseiro que estava amassado contra a parede e sentou no colchão, as pernas cruzadas. Um erro pequeno no traço do braço direito ainda chamava atenção, a linha que deveria ser mais suave ficava um pouco torta, mas ela não pegou o lápis de novo. Em vez disso, passou a mão pelo rosto para limpar o suor que descia pela têmpora e decidiu deixar assim mesmo. Aquela escolha a deixou mais leve, o peso no peito diminuindo enquanto aceitava que o trabalho ficaria só para ela por enquanto. Para sentir melhor o movimento que tinha desenhado, Thalia se levantou de novo e deu dois passos leves no espaço entre a cama e a escrivaninha, girando o braço devagar como se seguisse o ritmo das ondas que ligavam a dança à água. O balanço do corpo a ajudou a ver, mesmo sem desenhar, como aquelas paixões podiam se encontrar em algo novo. Ela parou, sorriu de canto e voltou a sentar, ouvindo o vento suave bater contra a janela entreaberta.

O livro permanecia fechado na prateleira, e Thalia ajustou a posição do travesseiro mais uma vez, sentindo que guardar o desenho não era esconder, mas apenas esperar o momento certo. O calor úmido fazia a camisa colar nas costas, então ela se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e ficou quieta por alguns minutos, deixando o som ritmado da garoa preencher o quarto. Um pequeno fio de água escorreu pela vidraça e ela acompanhou com o olhar, percebendo que a visão de conectar as coisas que gostava não precisava ser mostrada imediatamente. Essa pausa a deixou mais tranquila, o erro no desenho agora parecendo parte natural do que ela tinha criado. Levantou-se uma última vez, foi até a escrivaninha e arrumou o lápis ao lado do caderno, depois retornou à cama e sentou de novo, aceitando a quietude do momento sem precisar explicar nada para ninguém.

Capítulo 4: A Porta se Abre

Veronica entrou devagar no quarto, segurando um copo de água gelada que suava nas mãos por causa do calor. Parou ao lado da escrivaninha quando notou o livro ligeiramente fora do lugar na prateleira e o canto da folha aparecendo entre as páginas. “Isso aí ficou bonito”, comentou ela, apontando para o traço que se via de relance. Thalia sentiu o peito apertar por um segundo, surpresa com o elogio que não esperava, e ficou em silêncio, os olhos baixos voltados para o chão enquanto mexia os dedos no tecido da bermuda.

Em vez de explicar o significado do desenho, ela se levantou devagar, caminhou até a prateleira e pegou o livro com cuidado. Abriu as páginas só o suficiente para deixar o desenho à mostra sobre a mesa, como se testasse a ideia de deixar a porta entreaberta sem forçar nada. O ar fresco da garoa entrou mais forte pela janela entreaberta, trazendo o cheiro de terra molhada, e Thalia agradeceu com um aceno de cabeça curto, sem palavras longas. “Pode deixar aí”, disse por fim, a voz baixa mas firme, percebendo que talvez pudesse contar mais em outra hora, quando o momento parecesse melhor. Veronica sorriu de leve, colocou o copo na escrivaninha e saiu do quarto sem fazer perguntas, deixando a porta entreaberta como Thalia tinha feito com o livro.

Thalia permaneceu de pé ao lado da mesa, o olhar ainda no desenho que agora estava visível. O calor úmido do quarto parecia ter diminuído um pouco com a brisa que entrava, e ela ajustou a posição da cadeira, puxando-a para mais perto da janela. Passou a mão pela borda do livro, sentindo a textura do papel que havia dobrado minutos antes, e percebeu que algo pequeno havia mudado no quarto e dentro dela. O erro no braço da bailarina continuava lá, mas agora não incomodava tanto, como se a presença de Veronica tivesse mostrado que nem tudo precisava ser perfeito para ser visto. Ela deu um passo para o lado, testando o espaço, e depois se sentou na beira da cama, as mãos apoiadas nos joelhos.

O copo de água ficou ali na mesa, as gotas escorrendo pelo vidro e formando um pequeno círculo úmido na madeira. Thalia olhou para ele, depois de novo para o desenho, e sentiu uma mistura de curiosidade e leveza que a fez querer explorar mais aquela conexão entre dançar e outras coisas que gostava, sem pressa de mostrar tudo. O vento suave continuou a entrar pela fresta, balançando levemente a cortina fina, e ela ficou sentada quieta, ouvindo os sons do lado de fora enquanto processava a visita rápida de Veronica. Nada havia mudado de forma grande, mas a decisão de deixar o livro aberto trouxe uma sensação nova de possibilidade, como se sua forma visionária de ver ligações pudesse ser compartilhada aos poucos. Levantou-se mais uma vez, fechou o livro com cuidado para não amassar o desenho e o colocou de volta na prateleira, mas deixou o canto da folha ainda à mostra, aceitando que aquela pequena abertura era suficiente por agora.

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