Do lado de fora, o sol batia forte e o ar úmido entrava pela janela, fazendo a sala parecer mais quente do que realmente estava. Thalia arrumava as caixas de jogos de tabuleiro na mesa, movendo as peças sem pressa, mas com a cabeça cheia de coisas que não cabiam só na organização. Ela sabia que, de novo, acabaria sendo a que segurava as pontas se algo desse errado entre os amigos.
O calor grudava na pele e a brisa leve mal ajudava. Thalia se perguntava se valia a pena continuar sendo sempre a leal, a que defendia antes de julgar, a que tentava equilibrar todo mundo. Parte dela queria só curtir a noite sem precisar intervir, mas a outra parte já previa que isso não ia rolar. O cansaço de ser quem mantinha a harmonia estava ali, quieto, misturado com a vontade de que os amigos se sentissem bem.
Ela parou um segundo, olhando as nuvens espalhadas no céu claro. Será que essa noite ia ser diferente ou ia acabar como sempre, com ela no meio resolvendo o que ninguém mais queria resolver? A dúvida ficou no ar, junto com o calor úmido.
Capítulo 1: Arrumando a Sala para os Amigos
Thalia segurou as bordas da mesa de madeira e empurrou devagar até o centro da sala, arrastando as cadeiras para deixar um espaço maior entre elas. O ar úmido do dia entrava pela janela e fazia a pele dela ficar um pouco pegajosa, mas ela continuou movendo os móveis sem reclamar. Foi até a estante, tirou três caixas de jogos de tabuleiro e as alinhou em fila na mesa, abrindo uma de cada vez para conferir se as peças estavam todas ali. Com o sol forte batendo lá fora, ela caminhou até as janelas e abriu mais duas, sentindo a brisa leve passar pela sala e aliviar um pouco o calor no corpo. Enquanto verificava as regras de um jogo, ouviu a campainha tocar. Lucas chegou primeiro, e Thalia foi até a porta, entregando a ele um copo de água gelada antes mesmo de ele pedir. “Pega aí, está bem quente hoje”, disse ela, voltando para a mesa para misturar as peças de um tabuleiro.
Mateus chegou logo depois, e ela repetiu o gesto, oferecendo refrigerante e perguntando se ele queria sentar perto da janela. A sala começava a ficar mais animada, mas Thalia percebia que precisava manter tudo organizado para evitar confusão depois. Enquanto embaralhava as peças de um jogo de estratégia, olhou para os amigos e falou: “Quero que essa noite fique leve e divertida pra gente, sem ninguém se estressando”. Ela apontou para um jogo específico que tinha várias etapas e permitia que todos jogassem ao mesmo tempo. “Vamos começar com esse aqui, dá pra todo mundo participar de forma igual, sem ficar esperando muito.”
Os amigos concordaram e começaram a tirar as cadeiras para se acomodar. Thalia ajustou a luminária de canto, porque o sol forte lá fora deixava a sala com uma luz diferente, mais suave por dentro. Ela pegou um bloco de notas para anotar quem ia começar, depois verificou se havia copos suficientes na mesa. Lucas perguntou se podia escolher a cor das peças primeiro, e ela respondeu “pode, só não bagunça tudo antes de a gente começar”. A brisa entrava e saía, mas o calor ainda fazia todo mundo beber mais que o normal. Thalia sentou por último, certificando-se de que ninguém estava apertado, e deu o sinal para começar a partida enquanto misturava as cartas uma última vez.
Capítulo 2: A Acusação Interrompe o Jogo
No meio da partida, Mateus parou de repente e apontou para a peça de Lucas, falando mais alto que o normal: “Você moveu isso errado, não era pra ir pra ali”. A sala ficou em silêncio por alguns segundos, e o ar parecia mais pesado apesar da janela aberta. Thalia largou as cartas que segurava e levantou rápido, caminhando até o lado de Lucas e ficando parada ao lado dele sem dizer nada no primeiro momento. Ela olhou para a peça e para o tabuleiro, depois falou com a voz calma, mesmo sentindo o suor escorrer pela testa por causa do calor que aumentava a tensão na sala: “Espera, a gente precisa de evidência antes de acusar alguém”.
Os amigos mudaram de posição sem que ninguém mandasse, puxando as cadeiras para formar um círculo maior ao redor da mesa. Thalia ficou ali, ombro a ombro com Lucas, enquanto observava as expressões de cada um. Mateus repetiu o que tinha visto, mas ela não respondeu logo, preferindo deixar todo mundo falar. Uma carta escorregou da mão de Beatriz e caiu no chão, fazendo todos olharem para baixo por um instante e distraindo a conversa. Thalia aproveitou o momento para olhar de novo os rostos ao redor, decidindo não tomar partido antes de entender direito o que tinha acontecido.
Ela pediu o manual do jogo, abriu na página das regras e colocou sobre a mesa sem apontar para ninguém. A brisa leve que entrava pela janela não era suficiente para refrescar o clima emocional agora, e o suor na testa dela aumentava. Lucas mexeu as peças de volta para o lugar anterior, e Thalia observou o movimento sem interferir. Os amigos ficaram em silêncio, esperando o próximo passo, enquanto ela continuava parada ao lado do amigo acusado, mostrando que não ia deixar a acusação ficar no ar sem nada para confirmar. A partida parou ali, e ela sugeriu que cada um explicasse o que tinha entendido da regra antes de continuar.
Capítulo 3: Propondo um Debate Justo
Thalia estendeu o braço por cima da mesa e pegou o manual que estava encostado na caixa do jogo, sentindo o canto do livro um pouco úmido por causa do ar do dia. Ela o colocou bem no meio, aberto, para que todos pudessem enxergar as páginas ao mesmo tempo. “Vamos resolver isso de um jeito organizado”, disse, olhando para Mateus e depois para Lucas ao seu lado. “Cada um vai ter um minuto para falar, sem interrupção. Eu marco no celular.” Ela ajustou o cronômetro e apontou primeiro para Mateus, que reclamou da jogada, depois para Lucas e por fim para os outros dois amigos que ainda estavam em silêncio. Lucas pareceu mais aliviado logo de cara e fez um aceno curto com a cabeça, quase imperceptível, mas Thalia entendeu como um obrigado por não ter deixado a acusação ficar no ar. Eles começaram a virar as páginas juntos, o papel fazendo um ruído seco quando duas folhas grudaram por causa da umidade. Thalia precisou separar com cuidado para não rasgar. O sol forte lá fora batia direto na janela e deixava a sala clara demais, então ela se levantou rápido, foi até a cortina e a puxou um pouco para a metade, diminuindo o reflexo no tabuleiro. Voltando para o lugar, ela notou que a testa suava e passou o dorso da mão para limpar antes de continuar. “Espera, vamos ler isso com calma”, pediu quando um dos amigos tentou pular para a próxima seção achando que já tinha entendido. A conversa seguiu com cada um dando sua opinião no tempo certo. Mateus repetiu que achava a peça ter sido movida errado, Lucas explicou o que tinha interpretado e os outros dois deram exemplos de partidas antigas. Thalia não deixou ninguém cortar a fala do outro, levantando a mão leve quando via alguém ansioso para falar. O grupo inclinou mais as cadeiras para perto do manual aberto, mudando o foco da briga para uma leitura coletiva das regras. Ela sentiu o cansaço de sempre ser a que punha ordem, mas continuou apontando as linhas com o dedo para que todos acompanhassem. Uma brisa fraca entrou pela janela e moveu as anotações que estavam soltas na mesa, então Thalia estendeu o braço e segurou os papéis para que não voassem. Lucas apontou uma ilustração do tabuleiro e perguntou se aquilo mudava alguma coisa. Eles folhearam mais duas páginas até encontrar uma nota pequena no rodapé que parecia explicar o movimento em dúvida. A discussão avançou devagar, mas de forma produtiva, porque agora estavam todos olhando para o mesmo texto em vez de se acusarem. Thalia bebeu um gole da água que tinha deixado ao lado da cadeira antes de falar de novo, sentindo a garganta seca. Mesmo com o esforço constante de equilibrar as falas, ela persistiu porque queria que a noite voltasse a ser boa para todo mundo, especialmente para Lucas, que tinha ficado quieto depois da acusação.
Capítulo 4: A Regra Mal Interpretada
Lucas inclinou o manual na direção dele e apontou para uma nota pequena escrita em itálico que ninguém tinha notado até então. “Olha aqui, diz que a peça pode ir para dois espaços se o dado sair par”, leu em voz alta. O silêncio durou dois segundos antes de risadas começarem a sair de todos, inclusive de Mateus, que balançou a cabeça e disse “foi mal, eu li errado”. A tensão que tinha ficado no ar se dissolveu de uma vez, transformando em alívio coletivo enquanto cada um relembrava como tinha entendido a regra de forma diferente até aquele momento. Thalia sorriu ao ver os ombros de Lucas relaxarem e ao ouvir as risadas ecoando pela sala, mas ao mesmo tempo percebeu o peso que carregava sempre que precisava trazer de volta a harmonia. Eles ajustaram as peças no tabuleiro conforme a correção indicada, movendo as que tinham ficado fora do lugar durante a discussão. A brisa agora parecia mais fresca, entrando com mais força pela janela e aliviando o calor que ainda fazia a pele grudar na camisa. Thalia se ajeitou na cadeira e sugeriu trocar para um jogo mais colaborativo, algo em que todos vencessem ou perdessem juntos, para não repetir o clima de antes. Os amigos concordaram rápido, e ela começou a guardar as peças do jogo atual enquanto um dos outros pegava a caixa do próximo tabuleiro da pilha ao lado da mesa. O sol lá fora começava a baixar, mudando a cor da luz que entrava pela janela e fazendo as sombras das árvores se alongarem no chão da sala. Lucas agradeceu baixinho quando Thalia lhe passou a caixa para guardar, e ela respondeu com um “sem problema” enquanto guardava o manual de volta na prateleira. Eles montaram o novo jogo rápido, espalhando cartas e marcadores coloridos pela mesa. Thalia observou o grupo já mais solto, conversando sobre as jogadas erradas de antes, mas sentiu o cansaço de ter sido a pessoa que precisou organizar tudo novamente. Ainda assim, ela puxou a cadeira para mais perto e ajudou a distribuir as cartas iniciais, decidindo que ia deixar o próximo conflito, se existisse, ser resolvido por todos ao mesmo tempo. A tarde quente estava virando noite devagar, e a sala agora parecia mais leve depois da descoberta.
Capítulo 5: Encerrando com Nova Escolha
Thalia acompanhou os amigos até a porta da frente, onde o ar da noite já não carregava mais aquele calor úmido do meio da tarde. Lucas foi o último a sair, ainda rindo baixo da descoberta da regra que ninguém tinha visto. Ela acenou sem marcar nada para o próximo encontro e fechou a porta devagar, sentindo o clique do trinco ecoar mais alto do que o esperado na sala silenciosa. Em vez de voltar para a mesa e abrir o grupo no celular para combinar outra noite, ela parou no meio da sala e olhou ao redor. As cadeiras estavam no lugar, as caixas dos jogos empilhadas de novo na prateleira, tudo porque ela tinha pedido ajuda a Lucas minutos antes de ele ir embora.
Na cozinha, encheu um copo com água da geladeira e voltou para a varanda. O céu escuro agora cobria o quintal, e uma brisa fina passava pelas grades de ferro, aliviando o cansaço que apertava nos ombros. Sentou na cadeira de madeira, as costas ainda quentes do dia inteiro, e tomou um gole devagar, sentindo o gosto fresco descer enquanto observava o reflexo da luz da sala no chão de cimento. Não queria pensar logo em quem chamar da próxima vez ou em como impedir que outra acusação surgisse. Apenas ficou ali, com o copo na mão, notando o quanto tinha falado durante o debate sobre o manual.
Puxou o celular do bolso da bermuda e abriu a conversa com Lucas. Digitou devagar, sem revisar muito: “Valeu por ter ficado até o final. A gente entendeu tudo junto no final”. Apertou enviar e guardou o aparelho de novo, o polegar ainda sentindo a vibração da tela. A sala atrás dela estava arrumada, mas o manual continuava aberto sobre a mesa, com as páginas marcadas pela umidade do ar de mais cedo. Ela se levantou, entrou, pegou o livro com as duas mãos e fechou as capas com cuidado, sentindo o peso leve do papel. Em vez de guardá-lo na prateleira dos jogos, deixou-o em cima do armário baixo, fora do alcance fácil, como se marcasse que não precisava resolver tudo agora.
Voltou para a varanda e sentou de novo, os pés descalços no chão frio. O dia claro tinha virado noite sem que ela percebesse o momento exato da mudança. A brisa agora trazia cheiro de terra molhada de algum quintal vizinho, e Thalia ficou olhando o celular escuro no colo, pensando que talvez pudesse deixar o próximo conflito seguir sem ela sempre no meio. Não mandou mensagem para ninguém mais. Apenas ficou ali, com o copo quase vazio, sentindo o cansaço se instalar devagar enquanto o vento noturno passava.