Com o céu azul e o calor de trinta graus entrando pela janela, Thalia sente o telefone vibrar com notificações do grupo da escola. O ar parado da sala parece pesar mais a cada mensagem que chega, e ela fica um instante parada antes de desbloquear a tela. Fora, as folhas se mexem devagar na brisa, mas dentro do chat as palavras já começam a se acumular como nuvens carregadas.
Ela relê os comentários sobre futebol e basquete, notando como cada opinião puxa para um lado diferente. Algo dentro dela insiste que vale a pena falar, mesmo sabendo que ninguém gosta de ser contestado. O ventilador zumbia baixo no canto, misturando o zumbido com o som seco das notificações.
Thalia percebe que defender o que acha certo pode custar mais do que imaginava. Não é só escolher um esporte ou outro, mas decidir até onde manter a própria opinião sem perder o respeito de quem está do outro lado da tela. O dedo paira sobre o teclado enquanto o suor escorre devagar pela têmpora.
Capítulo 1: A Primeira Mensagem
Thalia puxou a cadeira para perto da mesa da sala e se sentou, sentindo o calor de trinta graus entrar pela janela aberta e pesar no ar parado. O ventilador no canto zumbia baixo sem conseguir espalhar frescor de verdade, e ela empurrou um copo vazio um pouco para o lado para abrir espaço no tampo de madeira. Pegou o celular que vibrava sem parar e abriu o chat do grupo da escola, onde a conversa sobre esportes já estava cheia de mensagens. Uns colegas afirmavam que o futebol pedia mais habilidade por causa dos dribles em campo aberto e da necessidade de pensar rápido em equipe, enquanto outros respondiam que o basquete era superior porque exigia precisão nos arremessos e marcação constante sem poder parar o jogo. Thalia relia tudo com atenção, percebendo como as opiniões se dividiam rápido e algumas frases já soavam agressivas. Sua camiseta colava nas costas por causa do suor, e ela se inclinou para frente, tentando achar uma posição que aliviasse o desconforto. Com determinação, digitou uma mensagem curta e direta: “Regras justas para todo mundo importam mais do que qual esporte é mais popular ou famoso na escola”. Apertou enviar sem parar para pensar duas vezes. O coração bateu mais forte quando apareceu a marca de lido embaixo da frase. A brisa leve que entrava pela janela tocou seu rosto e pareceu dar um pequeno empurrão para ela continuar ali. Logo chegaram as primeiras respostas. Uma colega escreveu que concordava e que justiça era o que contava em qualquer jogo. Outra perguntou se Thalia estava defendendo o basquete só porque não entendia de futebol. Thalia respirou fundo, girou o celular na mão e decidiu não recuar ainda. Rolou a tela para ver o que mais surgia, sentindo que precisava ficar para manter a conversa honesta em vez de deixar que virasse briga entre lados. Lembrou de um treino de vôlei que fizera na semana anterior, onde as regras claras tinham evitado discussões, e isso a ajudou a se manter firme. Ajustou o ventilador mais para perto, pegou o celular de novo e leu outra mensagem que chamava quem discordava de “ingênuo”. Mesmo com o calor aumentando, ela permaneceu sentada, rolando a tela devagar e pensando em como responder sem aumentar a confusão. O dia lá fora continuava azul e quente, mas dentro da sala a tensão do chat crescia a cada notificação nova.
Capítulo 2: Tentando Equilibrar
As mensagens se acumularam rápido no chat e Thalia sentiu o celular esquentar na mão. Levantou da cadeira, caminhou descalça até a cozinha e sentiu o piso frio sob os pés como um alívio breve do calor que grudava tudo. Abriu a geladeira, pegou um copo e encheu de água da jarra, tomando um gole longo antes de voltar para a sala. Sentou de novo, colocou o copo ao lado do celular e começou a digitar uma resposta mais calma, trazendo dados sobre competições justas que ouvira nas aulas de educação física. Citou que em torneios oficiais o que decidia o resultado eram as regras aplicadas do mesmo jeito para todos os times, sem favorecer um esporte só porque era mais conhecido. Seu objetivo era manter o respeito no grupo, mas percebeu que alguns colegas já elevavam o tom e chamavam sua ideia de ingênua ou de quem não torcia por time nenhum. Mesmo assim, persistiu e escreveu outra mensagem que reconhecia pontos de ambos os lados: “Futebol tem estratégia de equipe e basquete exige velocidade individual, os dois podem ser difíceis dependendo do jogador”. Não cedeu à pressão de escolher um time só para agradar. O suor na testa desceu e ela passou a mão no rosto antes de apertar enviar. O celular vibrou com mais notificações enquanto o sol lá fora parecia deixar o ar da sala ainda mais pesado. Thalia sentiu o peso de querer que todo mundo continuasse amigo e ao mesmo tempo dizer o que acreditava sobre justiça nos esportes. Ajustou o ventilador de novo, pegou o copo para tomar mais um gole e viu uma nova mensagem que repetia que futebol era o único esporte que realmente importava. Ela não respondeu de imediato, em vez disso ficou olhando a tela por alguns segundos, pensando se valia a pena continuar ou se era melhor parar antes que a conversa piorasse. Mesmo assim, digitou uma frase curta pedindo que voltassem aos argumentos sem ataques, depois enviou e guardou o celular por um instante na mesa. O chão frio da cozinha ainda parecia presente nos pés, mas o desconforto interno voltava com cada vibração nova. Thalia respirou fundo, pegou o lápis que estava ali e girou entre os dedos enquanto esperava o que viria em seguida, sem desistir de tentar equilibrar as coisas.
Capítulo 3: O Clima Esquenta
Thalia ajustou a posição na cadeira, encostando o cotovelo na mesa enquanto o celular esquentava na palma da mão. O ventilador no canto da sala girava sem parar, mas o ar de trinta graus continuava pesado, fazendo a camiseta colar nas costas. De repente o grupo vibrou com um áudio longo. Ela apertou o play sem pensar duas vezes. A voz da colega saía forte, criticando quem não apoiava o futebol e chamando as ideias contrárias de frescura. Thalia inclinou o corpo para mais perto da tela, sentindo o peito apertar junto com o calor.
Ela relê sua própria mensagem anterior, aquela em que defendia que regras justas importam mais que popularidade, e percebeu que o tom do chat tinha mudado. Em vez de trocar opiniões sobre habilidade no basquete ou no futebol, as respostas viraram acusações diretas. Um colega escreveu que quem não torce pelo futebol não entende de esporte de verdade. Outro mandou vários emojis de raiva seguidos de “para de estragar o grupo”. Thalia mordeu o lábio inferior e sentiu o orgulho de ter entrado na conversa começar a pesar.
Mesmo assim, ela abriu o campo de texto e digitou uma frase curta: “Pessoal, a gente consegue falar dos esportes sem atacar ninguém, né? Foco nos argumentos”. Antes de enviar, passou o polegar na tela para apagar uma palavra e reescrever, certificando-se de que soasse calmo. O coração batia mais forte, mas ela apertou o botão de enviar mesmo assim. A lealdade que sentia pelos amigos do grupo balançava, porque ao mesmo tempo queria proteger o que achava certo sobre competições justas.
O ventilador continuava zumbindo, mas o ar parecia mais denso. Novas mensagens chegaram cheias de emojis irritados e gifs de gente batendo na mesa. Thalia limpou o suor da testa com o dorso da mão e mudou o celular para a outra palma, tentando aliviar o calor. Ela se levantou por um segundo, caminhou até o interruptor para aumentar a velocidade do ventilador e voltou a sentar. O debate não voltava aos exemplos de skill ou tática, e isso a deixava inquieta.
Uma notificação de Veronica apareceu no topo da tela: “Quer lanche agora ou mais tarde?”. Thalia parou o polegar sobre o teclado, respirou fundo e respondeu “já já”, depois voltou para o chat. O conflito continuava crescendo e ela percebeu que sua tentativa de manter o respeito não tinha parado as divisões. O celular vibrou de novo com mais áudios curtos, e Thalia sentiu que a coragem de participar também trazia um peso que ela ainda não sabia como carregar.
Capítulo 4: Admitindo e Propondo
Thalia respirou fundo, virou o rosto para a janela e observou as folhas se mexendo devagar na brisa que entrava. O calor ainda estava lá, mas aquele pequeno movimento de ar deu uma pausa diferente. Ela decidiu que a mensagem seguinte precisava ser outra. Em vez de defender só seu ponto, digitou devagar: “Eu não sei tudo sobre os dois esportes. Talvez cada um possa falar um ponto positivo do outro lado, pra gente entender melhor?”. O orgulho doeu um pouco enquanto ela escrevia que podia estar errada em parte, mas ela continuou até o final e enviou.
Alguns colegas pararam de mandar emojis de raiva. Uma resposta apareceu dizendo que o basquete tem a vantagem do trabalho em equipe visível o tempo todo. Outra citou que o futebol exige leitura rápida de jogadas em campo aberto. Thalia sorriu pequeno ao ver a conversa voltar a fluir com exemplos reais, mesmo sem ninguém mudar completamente de ideia. O celular ainda estava quente, mas ela não sentiu mais vontade de fechar o app de uma vez.
Ela fechou o grupo por um minuto, guardou o telefone na mesa e se levantou. Caminhou até a janela, apoiou os antebraços no parapeito e deixou o vento bater no rosto por alguns segundos. O alívio veio misturado com a certeza de que nem toda discussão termina com um lado ganhando. Thalia ajustou a cortina para deixar mais ar entrar, depois voltou até a mesa para pegar o copo vazio que tinha empurrado mais cedo.
Quando voltou à cozinha, Veronica estava cortando frutas para o suco. Thalia pegou dois copos da prateleira sem ser pedida e colocou no balcão. Veronica perguntou como estava o grupo da escola. Thalia respondeu com um gesto simples de cabeça, aceitando o copo gelado que a responsavel ofereceu. O gosto do suco passou pela garganta e ela sentiu o corpo relaxar um pouco mais. O celular ficou em silêncio na sala, mas a ideia de que conflitos reais raramente têm vencedor claro ficou ali, girando devagar como as folhas lá fora.
Capítulo 5: Fechando a Tela
Thalia viu a notificação piscar no canto da tela e parou de rolar o chat por um instante. Uma colega que até então defendia só o futebol escreveu que tinha razão em parte: regras justas importavam mesmo, e ataques pessoais não ajudavam ninguém. Thalia leu duas vezes, sentindo o peito apertar de um jeito diferente, não de tensão, mas de algo mais leve e ao mesmo tempo estranho, como se o calor do dia tivesse afrouxado um pouco. Digitou um “valeu” curto, sem emojis exagerados, e saiu do grupo antes que a conversa voltasse a esquentar. Desligou a tela com o polegar e deixou o celular virado para baixo sobre a mesa da sala.
Levantou-se devagar, esticando as pernas que estavam dormentes da posição, e caminhou descalça até a cozinha. O piso ainda guardava um pouco da friagem do chão de manhã, um contraste com o ar que entrava quente pela janela. Veronica estava ali, tirando cubos de gelo de uma forma plástica e colocando em uma jarra de suco de limão. O barulho dos cubos batendo uns contra os outros soava nítido no silêncio da casa.
— Quer ajudar? — perguntou Thalia, já estendendo a mão para pegar dois copos do armário.
Veronica sorriu de leve e empurrou a jarra para o lado dela. Thalia segurou os copos e sentiu o gelo gelar as pontas dos dedos, um frio que subiu pelos braços e pareceu cortar o calor que ainda carregava no peito desde o chat. Colocou os copos na bancada, um de cada vez, e observou as gotas de água escorrendo pelo vidro.
Antes de puxar a cadeira, olhou para fora mais uma vez. O céu continuava azul-limpo, as folhas das árvores se mexendo devagar na brisa que entrava fraca. Pensou que, no grupo, ninguém tinha vencido de verdade: alguns concordaram em partes, outros ficaram quietos, e o debate simplesmente parou. Conflitos reais pareciam sempre assim, sem um lado saindo por cima.
Veronica serviu o suco e perguntou, sem tirar os olhos da jarra:
— Como foi o dia?
Thalia pegou o copo, sentiu o peso do gelo no fundo e fez um gesto simples: ergueu um pouco o copo em direção a Veronica, um agradecimento mudo antes de levar à boca. O líquido frio desceu pela garganta, aliviando o resto do calor que ainda restava. Sentou-se na mesa da cozinha, os pés agora descansando no chão frio, e ficou ali um minuto só, o celular escuro na sala ao lado, o céu lá fora parecendo um pouco mais amplo sem a tela iluminada.