História personalizada

Olha Aquela Estrelinha

Para Ethan 3 horas atrás

Na noite fresca de Balneário Camboriú, o ar úmido entrava devagar pela janela do quarto e fazia a cortina dançar bem de leve. Ethan, de três aninhos, estava quietinho no colo do pai Alex, enrolado numa manta macia que protegia do friozinho lá fora. Ele encostava a cabeça no peito do pai e sentia o sobe-desce gostoso da respiração, enquanto os dois olhavam para o céu meio nublado.

Lá fora, as nuvens passeavam devagar, escondendo e mostrando pontinhos de luz. Era hora de esperar — esperar as estrelas aparecerem e brincarem de se esconder entre as nuvens. Ethan apertava a manta com os dedinhos e, bem calminho, começava a procurar a primeira estrela da noite.

Ilustracao do capitulo 1

Capítulo 1: A Primeira Apontada

Ethan puxou a ponta da manta e ajeitou o tecido macio bem perto do queixo. O ar fresco da noite entrou pela janela entreaberta e fez um ventinho gelado passar pelos fiozinhos loiros da testa dele. Ele se encostou mais no peito do pai e sentiu o corpo firme de Alex por baixo da coberta, como se fosse uma poltrona quentinha que balançava devagar.

— Tá friozinho, filho? — Alex perguntou, ajeitando a manta nos ombros de Ethan.

Ethan não respondeu com palavras. Só afundou o rostinho no tecido e ficou olhando para o céu escuro pela janela. As nuvens cobriam quase tudo, mas ele esperou. Os olhos azuis ficaram bem abertos, atentos, como se procurassem alguma coisa que ainda não tinha aparecido.

Alex passou a mão devagar nas costas de Ethan, fazendo círculos bem leves por cima da manta. O quarto estava quase escuro — só uma luzinha amarela do abajur deixava o ambiente meio dourado. Lá fora, o céu parecia um cobertor cinzento cheio de dobras, mas de repente uma pontinha de luz furou uma nuvem e brilhou fraquinha.

Ethan levantou a cabeça depressa. O corpo todo se endireitou no colo do pai. Ele soltou um braço da manta, esticou o dedinho e apontou para a janela com força, como se estivesse mostrando um amigo que chegava de longe.

— Olha aquela! — a voz saiu animada, mais alta do que o normal, e o dedinho ficou parado no ar apontando para a estrelinha.

Alex olhou para onde Ethan apontava e sorriu.

— É uma estrela, Ethan. Ela apareceu entre as nuvens. Você viu primeiro.

Ethan baixou o dedo devagar, mas continuou olhando. A estrela piscava fraquinho, sumia por um segundo atrás de um fiapo de nuvem e depois voltava. Ele piscou junto, imitando a luz, e apertou a manta com a outra mão. O tecido roçou no rosto dele e ele sentiu o cheirinho de amaciante que ainda estava no cobertor.

— Tá vendo? — Alex falou bem baixinho, perto do ouvido de Ethan. — Ela vai e volta.

Ethan fez que sim com a cabeça, mas não desgrudou os olhos da estrela. Ele sentiu o peito do pai subir e descer num ritmo calmo, como se fosse um barco balançando na água mansa. A cortina se mexeu mais uma vez, e o ar úmido trouxe um cheirinho de terra molhada lá de fora.

Ele esperou. Não pediu para fechar a janela, não pediu para deitar. Só ficou ali, quietinho, o dedo agora descansando em cima da manta, enquanto a estrelinha continuava brilhando no meio do céu nublado. Alex beijou o topo da cabeça de Ethan e continuou balançando o corpo devagar, como se os dois estivessem numa rede invisível.

Depois de um tempinho, a estrela sumiu atrás de uma nuvem maior e não voltou. Ethan franziu a testa e olhou para o pai.

— Foi?

— Foi brincar de esconde-esconde com a nuvem. Daqui a pouco aparece outra.

Ethan suspirou bem fundo — um suspiro pequenininho, de quem aceitava a espera — e voltou a olhar pela janela. A manta continuava quentinha, o colo continuava firme e o dedo, agora descansando, estava pronto para apontar de novo.

Ilustracao do capitulo 2

Capítulo 2: A Segunda Estrela no Meio das Nuvens

O tempo foi passando bem devagar, como se a noite também estivesse enrolada numa manta e não quisesse sair do lugar. Ethan manteve os olhos na janela. Ele ouvia o barulhinho do vento lá fora e sentia o ar úmido entrar pelas frestas, deixando o nariz dele um pouco gelado. Esfregou o nariz na manta e continuou esperando.

Alex mudou Ethan de posição no colo, ajeitando o peso dele sobre o braço esquerdo. Ethan se encaixou de novo, virou o corpinho um pouco mais para o lado e ficou de frente para uma parte diferente da janela. Agora ele via um pedaço do céu onde as nuvens estavam mais fininhas, quase transparentes.

Foi então que outra estrela apareceu.

Ela não furou a nuvem como a primeira. Essa veio devagar, como se estivesse abrindo uma cortininha de gaze e espiando para dentro do quarto. Ethan viu a luzinha surgir mais para a esquerda, fraquinha também, mas constante — não piscava igual à outra. Ela brilhava firme, parada no lugar.

Ele levantou o dedo de novo. Dessa vez, o movimento foi mais suave, como se ele já soubesse o que fazer. Apontou com o dedinho e abriu um sorriso pequeno, o canto da boca subindo devagar.

— Olha aquela — a voz saiu mais baixinha agora, quase um segredo, mas cheia de contentamento.

Alex acompanhou o olhar de Ethan e viu a estrelinha brilhando no meio das nuvens finas.

— Essa aí tá bem quietinha, né? Ficou no cantinho dela.

Ethan balançou a cabeça concordando. Ele manteve o dedo apontado por mais alguns segundos, como se estivesse cumprimentando a estrela, e depois recolheu a mão para dentro da manta. O ar fresco continuava entrando, e ele sentiu o cheiro da noite — um cheiro limpo, meio molhado, que só existe quando a temperatura está baixa e o céu está carregado de nuvens.

Ele se mexeu um pouquinho no colo, virando o corpo mais ainda para enxergar melhor o pedaço de céu. A manta escorregou do ombro, e Alex puxou o tecido de volta com cuidado, cobrindo o bracinho de Ethan outra vez. O menino nem percebeu — estava ocupado demais olhando a estrela.

— Quer ver se aparece mais? — Alex perguntou.

— Quelo — Ethan respondeu, e a palavra saiu com aquele jeitinho de três anos, o "r" virando "l", mas a intenção era firme.

Ele voltou a esperar. Não pediu pressa, não reclamou do frio, não quis brincar com outra coisa. Só ficou ali, olhando o céu, a respiração calminha, o corpinho quentinho encostado no pai. Alex começou a balançar o corpo num ritmo ainda mais lento, e o movimento fez Ethan piscar os olhos mais devagar, quase no mesmo compasso.

A segunda estrela continuava lá, brilhando no cantinho do céu, e Ethan olhava para ela como se estivessem os dois — ele e a estrela — compartilhando um momento secreto na noite fresca de Balneário Camboriú.

Ilustracao do capitulo 3

Capítulo 3: A Estrela que Pisa Mais Forte

Ethan apertou os olhos um pouquinho para enxergar melhor lá fora. A cortina tinha parado de balançar por um instante, como se o vento também estivesse prestando atenção. Foi então que ele viu uma estrela diferente das outras duas. Ela não ficava parada no mesmo lugar — a luzinha subia e descia, subia e descia, como se estivesse piscando mais forte, mais rápido, mais vivo.

Ele ficou parado. Quietinho. Nem o dedinho se mexeu por um momento. O coração dele batia devagar, fazendo tum-tum dentro do peito, igualzinho ao ritmo daquela luzinha no céu. A manta macia continuava enrolada em volta dele, e ele sentiu o calor gostoso subir pelos ombros. O ar úmido da noite entrava pela fresta da janela e trazia um cheirinho de terra molhada, de folha fresca, de sono chegando.

Alex percebeu que Ethan tinha se aquietado ainda mais. O pai não disse nada, só apoiou o queixo de leve na cabeça loira do filho e ficou olhando junto, esperando. A respiração dos dois foi ficando no mesmo compasso, como se estivessem combinando o ar que entrava e saía.

— Olha aquela — sussurrou Ethan, mas dessa vez a voz saiu bem baixinha, quase um segredo contado só para o pai e para a estrela.

O dedinho dele se ergueu outra vez, apontando para o ponto brilhante que piscava no meio do céu escuro. Ele não desviou o olhar. A luzinha parecia chamar por ele, dizendo "estou aqui, estou aqui, estou aqui" com cada piscada. Ethan sentiu o peito ficar mais leve, como se a estrela tivesse entrado um pouquinho dentro dele e acendido uma luzinha igual, bem no meio do coração.

O vento resolveu voltar. A cortina roçou na janela com um shhhhhhh bem suave, como quem pede silêncio. Ethan puxou a ponta da manta e prendeu entre os dedos, segurando firme. O rostinho dele estava encostado no ombro do pai, e ele podia sentir o tecido da camiseta do Alex roçar na bochecha. Era macio, era quente, era seguro.

— Tá vendo, pai? — murmurou ele, sem tirar os olhos da estrela.

— Tô vendo, filho — respondeu Alex, com a voz grave e calma que fazia tudo ficar ainda mais tranquilo. — Ela pisca bem forte, né?

Ethan concordou com a cabeça, um movimento bem pequenininho, só para confirmar. Ele continuou observando. A estrela parecia dançar sem sair do lugar, como se estivesse feliz por ter sido notada. As outras estrelas continuavam lá, paradas, quietinhas, mas aquela especial tinha um brilho diferente. Era como se ela tivesse escolhido justamente aquela noite para aparecer assim, só para o Ethan ver.

Os olhos azuis dele foram ficando um pouquinho mais pesados, mas ele não queria fechar ainda. Queria guardar aquela imagem: a estrela piscando, o pai abraçando, a manta cobrindo, a noite cuidando. Tudo junto, tudo certo, tudo bonito.

A mãozinha dele, que antes apontava com firmeza, agora descansava em cima da manta, bem perto do peito. Ele ainda ouvia o tum-tum calmo do coração, misturado com o shhhhhhh da cortina no vento. A luzinha lá fora continuava subindo e descendo, subindo e descendo, como se estivesse dizendo sim, sim, sim para alguma pergunta que ninguém tinha feito em voz alta, mas que todo mundo entendia.

Ilustracao do capitulo 4

Capítulo 4: Obrigado pelas Estrelas

O silêncio foi ficando diferente. Não era um silêncio vazio — era um silêncio cheio de estrelas, de vento, de amor. Alex respirou fundo e sentiu o cheirinho do filho, misturado com o cheiro da noite fresca. Ele sabia que estava na hora de agradecer. Era algo que sempre faziam, mesmo nos dias mais simples, como aquele.

— Ethan — chamou o pai bem baixinho. — Vamos agradecer a Deus pelas estrelas?

Ethan desencostou a cabeça do ombro do pai e olhou para cima, para o rosto de Alex. Os olhinhos ainda carregavam o brilho da estrela piscante, como se o reflexo tivesse ficado guardado ali dentro. Ele fez que sim com a cabeça, ajeitou a manta que tinha escorregado um tiquinho do ombro e juntou as mãos do jeito que o pai tinha ensinado.

— Obrigado, Deus — começou Alex, com voz suave e pausada, esperando o filho repetir cada pedacinho.

— Obrigado, Papai do Céu — repetiu Ethan, do jeitinho dele, trocando "Deus" por "Papai do Céu" como sempre fazia.

— Pelas estrelas que a gente viu hoje.

— Pelas estrelas... — Ethan fez uma pausa, olhou rápido para a janela e completou: — ...que piscam forte.

Alex sorriu. Continuou:

— Pelo nosso lar e pela noite tranquila.

— Pela nossa casa e pelo ventinho — repetiu Ethan, sentindo o ar úmido tocar de leve o rosto.

— Cuida do nosso sono e do nosso coração.

— Cuida do meu soninho e do coração do papai.

As palavras foram se acomodando no quarto como se fossem pequenas cobertas invisíveis, envolvendo tudo. Ethan fechou os olhos por um instante, apertou as mãozinhas com mais força e depois as soltou, colocando uma delas em cima da mão grande do pai.

— Amém — disse Alex.

— Amém — sussurrou Ethan, abrindo os olhos bem devagar.

Ele se virou para a janela mais uma vez. A estrela piscante ainda estava lá, firme no seu lugar. Ethan esticou o bracinho para fora da manta, apoiou a mão no colo do pai e depois tocou de leve o vidro gelado da janela. A pontinha dos dedos ficou fria na mesma hora, mas ele não tirou. Fez um carinho bem suave no vidro, de cima para baixo, como se estivesse alisando a cabeça da estrela.

— Tchau, estrelinha — falou baixinho. — Boa noite.

Alex esperou mais um pouquinho, respeitando o tempo do filho. Depois, com todo cuidado, deslizou as mãos por baixo da manta e levantou Ethan do colo, apoiando a cabeça loira no próprio ombro. O menino foi se encolhendo como um gatinho, as perninhas dobradas, os braços largados, a manta ainda enrolada em volta do corpinho.

Os passos de Alex foram lentos, quase sem barulho, até a caminha que ficava no canto do quarto. Ele abaixou Ethan com suavidade, ajeitou o travesseiro e puxou a manta, cobrindo os ombros, depois as costas, depois os pezinhos que já estavam quentinhos. Os olhos azuis de Ethan já estavam quase fechados, mas ele ainda olhou para o pai uma última vez.

— Obrigado, Papai do Céu — murmurou ele, já meio dormindo, repetindo a oração do seu jeito.

Alex se abaixou, deu um beijo na testa do filho e ficou ali por mais um tempinho, sentado na beirada da cama, vendo o peito de Ethan subir e descer no ritmo calmo de quem acabou de receber a bênção da noite. Lá fora, a estrela piscante continuava brilhando, cuidando de longe, enquanto o sono chegava devagarinho, trazendo sonhos bons e um céu inteiro para explorar.

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