História personalizada

Os Beijinhos de Boa Noite

Para Ethan 1 hora atrás

Ethan acabou de sair do banho e já veste o pijama quentinho, daqueles que abraçam a pele e deixam tudo macio. Ele sobe na cama grande com cuidado, afundando os pés no colchão. Alex está sentado bem na beirada, observando cada movimento com um sorriso calmo.

Lá fora, a noite está fria e úmida, com uma garoa fininha que bate de leve na janela. Mas aqui dentro o quarto é um ninho: a luz baixinha deixa tudo cor de mel, o cheirinho de sabonete ainda dança no ar, e o cobertor já espera dobrado. Ethan respira fundo e olha para a cabeceira, onde três bichinhos de pelúcia estão arrumadinhos lado a lado — um urso, uma estrela amarela e um coelhinho branco. Ele decide que antes de fechar os olhos, cada um deles vai ganhar um beijinho de boa noite.

Capítulo 1: O Primeiro Beijinho

O cheiro de sabonete ainda estava grudado na pele de Ethan. Ele saiu do banho bem limpinho e vestiu o pijama de flanela azul-marinho, com estampas de foguetes e estrelinhas miúdas. O tecido quente abraçava os braços e as pernas, e ele subiu na cama grande com cuidado, os pezinhos afundando na colcha fofinha cor de creme. Lá fora, a garoa fina batia de leve no vidro da janela, fazendo um tic-tic sem pressa, e o ar frio e úmido ficava do lado de fora — dentro do quarto, tudo era macio, iluminado por uma luz alaranjada que vinha do abajur com cúpula de pano. Alex estava sentado na beirada da cama, com o corpo virado para o filho, os braços apoiados nos joelhos e um sorriso tranquilo no rosto. Não precisava dizer nada; só olhava com aquela calma gostosa de noite, como quem espera um ritual conhecido.

Na cabeceira da cama, os três bichinhos de pelúcia estavam arrumadinhos lado a lado. O urso marrom, de orelhas redondas e focinho gasto de tanto abraço. A estrela amarela de pano, com um miolo que brilhava no escuro feito um pirilampo dormindo. E o coelhinho branco, quase escondido atrás da dobra do travesseiro, com as orelhas compridas caídas para o lado. Era a turma da noite. Ethan bateu os olhos neles e sentiu o corpinho se encher de uma vontade que já vinha de outros dias: cuidar, colocar no lugar, ter certeza de que cada um receberia o carinho do “boa noite”.

Ele se ajeitou no meio da cama, o lençol dobrado até a altura das pernas, e esticou o braço para alcançar o primeiro amigo. A mão pequena escolheu o urso marrom. Agarrou-o pela barriga e puxou para perto do peito. O pelo era curtinho e muito macio; quando Ethan apertou, a pelúcia esquentou rapidinho a palma da mão e fez um barulho baixinho de tecido se enrolar. Ele abaixou o rostinho até encostar os lábios no meio da orelha esquerda — bem na ponta arredondada, quase careca de tanto carinho. Fechou os olhos por um segundo, como se guardasse um segredo, e deu o beijinho. Um som estalado, molhado, seguido de um suspiro curto.

Então, com a voz baixa e arrastada de quem já está ficando sonolento, Ethan sussurrou: “dorme bem, ursinho”. As palavras saíram uma a uma, bem devagar, e o hálito morninho fez cócegas no próprio lábio. Ele puxou o urso mais uma vez contra o peito, sentiu o cheiro de pano limpo misturado com o perfume do amaciante que Alex usava nas roupas de cama, e depositou o bichinho com todo o cuidado na almofada do seu lado esquerdo. Colocou de barriguinha para cima, as patinhas dianteiras esticadas como se o urso também estivesse pronto para dormir. Ajeitou a orelha que ele tinha beijado e alisou o focinho com a ponta dos dedos, bem de leve, três vezes — tum, tum, tum.

Alex continuava imóvel. Só a cabeça se moveu um pouco para acompanhar o gesto do filho. Seus olhos brilhavam com um orgulho manso, daqueles que não precisam de palavras. A luz do abajur desenhava uma sombra doce no canto do quarto e fazia os fios loirinhos de Ethan parecerem fiapinhos de sol.

Ethan deu um sorriso grande, satisfeito, mostrando os dentinhos de leite. Ajeitou os ombros para trás, sentiu o calor do pijama e respirou fundo. Virou o rostinho para o lado e apontou o dedo indicador, esticadinho, para o próximo bichinho: a estrela amarela. O dedo ficou um instante no ar, como quem escolhe um desenho para colorir. Alex seguiu o olhar do filho e esperou.

Capítulo 2: O Amigo do Céu

A estrela amarela estava apoiada no travesseiro, meio tortinha, uma ponta para baixo e duas para os lados. Ethan engatinhou dois passos sobre a cama, o pijama fazendo fru-fru contra o lençol, e pegou o brinquedo com as duas mãos, com um cuidado que deixava os dedinhos abertos igual estrela-do-mar. O tecido era de pelúcia curtinha e nas pontas tinha uns fios mais brilhantes, dourados, que faiscavam quando a luz batia. No centro, um miolo arredondado e levemente pintadinho com tinta que brilhava no escuro — agora, com o abajur acesso, dava para ver só um rastro verde-água, bem clarinho, mas Ethan sabia que mais tarde, com tudo apagado, aquela parte ia acender devagarzinho.

Ele ergueu a estrela na altura dos olhos e deu dois beijinhos seguidos: primeiro na ponta de cima, bem na quina macia, e depois na ponta da direita, quase emendando um beijo no outro. Cada beijo saiu com um “muá” baixinho, e a vozinha dele se alterou um pouquinho, como se estivesse recitando um verso preferido. Depois, repetiu a mesma frase do ursinho, só que agora o nome mudou: “dorme bem, estrelinha”. A fala foi dita num sussurro tão leve que parecia querer entrar pelo pano e esquentar cada centímetro do brinquedo.

Diferente do urso, desta vez Ethan não só colocou a estrela ao lado. Ele primeiro juntou o bichinho contra o coração, como se quisesse dar um pedacinho do próprio calor. Abraçou com força por três segundos — um, dois, três —, sentindo as pontinhas apertarem de leve a palma da mão. Depois, com um movimento lento e redondo, pousou a estrela bem ao lado do urso marrom, encaixando a ponta de baixo na barriguinha do ursinho para que os dois ficassem juntinhos, tocando-se. Ajeitou a posição três vezes, até a estrela ficar com as pontas viradas para cima, como se estivesse deitada de barriga para o teto, o queixo de pano apontado para o abajur.

O quarto continuava muito quieto. Só o barulhinho leve da chuva no vidro preenchia o silêncio: um plic-plic constante, às vezes um ventinho úmido que mexia a cortina fina sem força. Ethan parou um instante para prestar atenção nesse som. Virou a cabeça para a janela — o contorno escuro da noite aparecia pelas frestas da persiana — e depois tornou a olhar para os brinquedos. O urso e a estrela tinham companhia um do outro; faltava alguém.

Ele então virou o corpinho todo para o terceiro lugar da cabeceira. A cabecinha loira fez um giro devagar, os olhos azuis procurando. No espaço onde deveria estar o coelhinho branco, havia apenas um vão entre a dobra do lençol e a beirada do travesseiro. O lugar estava vazio, sem as orelhas penduradas, sem a mancha cor-de-rosa do focinho de pano. Ethan ficou por um segundo parado, de boca entreaberta, o braço ainda esticado meio no ar, como se esperasse que o coelhinho aparecesse sozinho. Lá fora a chuva deu uma respirada mais forte contra a janela, e tudo ficou suspenso naquela pausa mínima de noite.

Capítulo 3: O Bichinho que Faltou

Ethan soltou um suspiro bem gostoso e deixou o corpo afundar no colchão. A cabeça loirinha tocou o travesseiro e ele ficou olhando para o teto por um instante, as mãozinhas pousadas sobre o cobertor. O ursinho marrom estava de barriguinha para cima na almofada ao lado, e a estrela amarela brilhava fraquinho bem pertinho. Estava tudo arrumado. Ele fechou os olhos devagar, pronto para dormir.

Mas alguma coisa não estava certa.

Ethan abriu os olhos de novo e ficou bem quietinho, só respirando. O barulho da garoa batendo de leve na janela enchia o quarto com um tique-tique suave, e ele escutava também a respiração calma de Alex sentado na beirada da cama. Mas ainda assim faltava alguma coisa. Ele franziu a testa, pensando, pensando, e de repente lembrou.

O coelhinho branco!

Ethan virou o corpo rapidinho, o pijama fazendo aquele barulhinho de tecido fofo se esfregando no lençol. Ele enfiou a mão atrás do travesseiro grande e seus dedinhos tocaram uma orelha macia. Puxou devagar e lá estava ele, o coelhinho branco de focinho rosa e orelhas compridas que caíam para os lados. O coelho estava escondido, meio achatadinho, como se estivesse esperando quietinho a hora de ser lembrado.

— Ah, coelhinho! — Ethan falou baixinho, segurando o bichinho com as duas mãos.

Ele se ajoelhou na cama, trazendo o coelho para pertinho do peito. O pelo branco era mais macio que o do urso, quase como algodão, e as orelhas balançavam quando ele mexia o bichinho. Alex continuava sentado, observando com aquele olhar calmo de quem não tinha pressa nenhuma, e Ethan sentiu que precisava terminar direitinho o que começou.

Ele ergueu o coelhinho até a altura do rosto e olhou bem para o focinho rosa. Depois encostou os lábios bem devagar, dando um beijinho exatamente no meio do focinho. O gesto foi tão cuidadoso que até o coelho pareceu sorrir um pouquinho. Ethan apertou o bichinho contra o peito mais uma vez e sussurrou com a voz mais carinhosa que conseguia fazer:

— Dorme bem, coelhinho.

Agora sim. Agora estavam todos.

Ele colocou o coelho ao lado do urso e da estrela, ajeitando as orelhas compridas para que ficassem esticadinhas sobre a almofada. O urso continuava de barriguinha para cima, a estrela brilhava no cantinho e o coelhinho estava bem no meio dos dois, como se os três formassem uma fileira de amigos prontos para dormir. Ethan olhou para os bichinhos e sentiu o coração ficar quentinho e calmo, daquele jeito bom que só acontece quando tudo está no lugar certo.

Ele passou a mão devagar sobre cada um deles, como se estivesse verificando se todos estavam confortáveis. O urso tinha o pelo um pouco arrepiado na orelha onde ganhou o beijinho. A estrela brilhava um pontinho amarelo que piscava bem de leve. E o coelhinho, que antes estava esquecido atrás do travesseiro, agora parecia o mais feliz de todos, com as orelhas bem esticadas e o focinho rosa apontado para o teto.

Lá fora, a garoa continuava caindo fininha, fazendo o tique-tique na janela, e o quarto estava cada vez mais quieto. A luz baixinha do abajur desenhava sombras macias nas paredes, e o ar tinha cheiro de sabonete e de pijama limpo. Ethan bocejou, um bocejo grande que fez seus olhinhos azuis se apertarem, e sentiu o corpo ficar molinho de novo.

Mas antes de deitar, ele ainda olhou para trás, para Alex, como se quisesse mostrar que tinha conseguido. Todos os três bichinhos estavam lá, arrumadinhos, cada um com seu beijinho e seu "dorme bem". Ele não deixou ninguém esquecido. E isso fez ele se sentir bem, do jeito que a gente se sente quando cuida direitinho das coisas que ama.

Capítulo 4: O Quarto Seguro

Ethan puxou o cobertor devagar, segurando a beirada com as duas mãozinhas e trazendo o tecido quentinho até o queixo. O cobertor tinha estampas pequenininhas de luas e nuvens, e ele gostava de sentir o tecido roçar no rosto quando se mexia. Lá fora, a garoa ainda fazia tique-tique na janela, um som tão constante e macio que parecia uma canção de ninar tocada bem baixinho.

Ele olhou pela última vez para os três bichinhos enfileirados na almofada. O urso marrom estava de barriguinha para cima, as patas dobradas como se também estivesse dormindo. A estrela amarela brilhava um pontinho fraquinho que piscava de vez em quando. E o coelhinho branco, que antes estava esquecido atrás do travesseiro, agora ocupava o lugar mais bonito, bem no meio, com as orelhas esticadas e o focinho rosa sereno. Ethan sorriu, um sorriso pequeno que só apareceu nos cantinhos da boca, e sentiu o travesseiro afundar um pouquinho quando ele ajeitou a cabeça.

Então ele virou o rostinho para o lado, procurando Alex. O pai continuava sentado na beirada da cama, as mãos apoiadas sobre os joelhos, o olhar tranquilo de quem estava ali só para acompanhar. A luz do abajur deixava tudo com uma cor dourada e quente, e Ethan conseguia ver o reflexo amarelo nos olhos de Alex.

Ele esticou o bracinho para fora do cobertor, os dedos abertos no ar, e falou com uma voz tão baixinha que quase se misturou com o barulho da chuva:

— Obrigado pelo quarto quentinho.

Alex segurou a mãozinha de Ethan com cuidado, os dedos grandes envolvendo os dedinhos pequenos com suavidade. Ficaram assim por um instante, só sentindo o calor das mãos juntas, enquanto o quarto continuava quieto e a garoa lá fora não parava de cair. Ethan piscou devagar, os cílios loirinhos tocando as bochechas, e sentiu que tudo estava exatamente como deveria estar. O quarto era seguro. A cama era macia. Os bichinhos dormiam ao lado. E Alex estava ali, pertinho.

Depois de um tempinho, ele soltou a mão do pai devagarinho e virou o corpo para o lado. O abajur ainda estava aceso, com aquela luz amarela que deixava tudo parecendo um desenho, e Ethan olhou para o interruptor. Ele sabia que estava na hora. Esticou o bracinho mais uma vez, os dedos procurando o botãozinho, e apertou.

A luz apagou com um clique suave, e o quarto ficou escuro, mas não um escuro assustador. Era um escuro azulado, iluminado só pelo brilho fraquinho da estrela amarela na almofada e pela luz da rua que entrava pela fresta da cortina. A garoa continuava lá fora, agora um pouco mais forte, e o tique-tique na janela ficou mais rápido e gostoso de ouvir.

Ethan puxou o ursinho marrom para perto, abraçando o bichinho contra o peito. O pelo macio esquentava sua bochecha, e ele sentiu o cheiro de sabonete que ainda estava grudado no urso, o mesmo cheiro que tinha nele depois do banho. Os olhinhos azuis foram fechando devagar, muito devagar, como se cada piscada fosse mais longa que a anterior.

Ele escutou Alex se mexer de leve na beirada da cama, ajeitando o cobertor sobre os ombros de Ethan, e aquilo foi a última coisa que ele sentiu antes de mergulhar no sono. O corpo ficou molinho, a respiração ficou lenta, e os três bichinhos continuaram lá, enfileirados na almofada, velando o sono do menino.

Lá fora, a garoa fininha continuava caindo sobre Balneário Camboriú, molhando as ruas, as árvores e os telhados, mas dentro do quarto tudo era quentinho, seguro e cheio de amor.

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